Das Pontes a Cerceda: a cara oculta do milagre industrial

OS EFECTOS DO INDUSTRIALISMO - Capítulo 1

Agora que a Galiza atura de novo umha propaganda quase unánime a prol da exploraçom mineira, voltamos a vista a um dos paradigmas autóctones da industrializaçom: As Pontes e Cerceda, vítimas dumha transformaçom acelerada que deu lugar a grandes paradoxos.

Facebook
Twitter
Google+
WhatsApp
Telegram
Email

Antom Santos | Lugo | 23 de abril.  No imaginário dos galegos e galegas, As Pontes de Garcia Rodrigues nom pode dissociar-se da imagem dumha cheminé colossal de 315 metros de altura que domina o horizonte do interior da comarca. A bisbarra poderia merecer a sua fama por acobilhar o concelho mais extenso da província da Corunha (o próprio município das Pontes), a riqueza natural das fragas do Eume, ou um dos cúmios mais altos de todo o noroeste galego, o Caxado. Se algum visitante interessado na história pesquisasse em arquivos ou bibliografia, daria por que as Pontes foi das zonas de maior modernizaçom rural há um século, vitalizada por um poderoso movimento agrarista que mesmo chegou a lançar iniciativas agro-industriais.

Trata-se, porém, de imagens hoje ensombrecidas polo gigantismo industrial: As Pontes é, por riba de todo, a vila da mina e da central térmica que Endesa abriu há 42 anos, aproveitando os jazigos de lignito; um pequeno núcleo populacional, historicamente ligado ao sector primário, sofreu em mui poucos anos umha das transformaçons mais radicais das registradas na história recente da Galiza. Por volta de 3.000 operários nutriam a plantilha da central nos seus anos de maior auge, sobre umha vizinhança total que nom acadava os 12.000 habitantes; umha drástica reforma urbanística foi acometida, dando espaço ao pessoal das mega-instalaçons, com presença prominente de técnicos qualificados de origem alheia. Os principais dados do relato oficial som, de resto, sobejamente conhecidos: um nível de renda muito superior ao dos concelhos da contorna, e semelhante ao das áreas mais desenvolvidas da Galiza; hábitos de lazer e consumo próprios dumha sociedade urbana; e, nom menos importante, o prestígio e orgulho social do proletário estável e bem pago, contraponto aos complexos e vergonhas associadas historicamente à galeguidade e ao rural. Deste modo, o milagre industrial trazia sérias impugnaçons à lenda negra que arrastava o interior do país, associado sempre com o caciquismo e a resignaçom. Para os defensores progressistas do industrialismo, As Pontes poderia ser o emblema dumha Galiza diferente: as infraestruturas urbanas melhorárom, a sindicaçom medrou notavelmente, um certo orgulho de classe começou a dominar, e novos comportamentos político-eleitorais abrírom-se passo para irromperem no concelho, onde governou a esquerda nacionalista em várias ocasions.

Há porém, um aspeito que pode emendar, dados em mao, a apologia que congregou os grandes partidos institucionais no aplauso a Endesa: a contribuiçom da central ao agravamento do efeito estufa, com um nível de emissons de gases que batem marcas na Europa. Segundo estimaçons realizadas polo ecologismo há umha década, a mega-estrutura emitia umha cantidade de gases poluintes equivalentes a mais de dous milhons de carros. Anos atrás, em plena bebedela do boom económico, as preocupaçons ambientais pareciam quase excentricidades de pequenos colectivos activistas; hoje, com o mito do crescimento indefinido mui enfraquecido, e com o colapso ambiental petando às portas, nem tam sequer a empresa puido fazer orelhas moucas às pressons.

Mega-projecto e comunidade

A central foi durante muitos anos a séptima infraestrutura poluinte da Europa, e a terceira em contribuir para o efeito estufa no Estado espanhol. As reformas tecnológicas acometidas, que se acompanhárom da importaçom de carvom norteamericano e indonésio, procurárom umha certa lavagem de cara verde; sem embargo, nom dérom ocultado que Endesa tem activado na Galiza umha enorme maquinária que hipoteca as geraçons futuras. Entidades ecologistas como Adega ou Verdegaia, apoiadas por numerosos especialistas, tem apostado sem hesitaçons polo fim da infraestutura que, com Meirama, é considerada o foco de nocividade ambiental mais intenso da Galiza e umha das indústrias mais tóxicas da Europa occidental. Os ambientalistas consideram umha brincadeira de mau gosto que se considere economia verde trazer carvom da outra ponta do globo para queimá-lo na Galiza, precisamente a piques de nos adentramos no esgotamento das energias fósseis. De feito, no passado ano vários activistas de Greenpeace foram detidos por bloquearem no porto da Corunha as cargas de carvom rumadas para Meirama. E embora o ex-alcalde Vítor Guerreiro manifestara no seu dia que “As Pontes deve muitíssimo a Endesa”, nom todos os soberanistas suscrevem a tese e pedem o seu encerramento definitivo.

Mudanças sociais e culturais que adoitam decorrer no decurso de várias geraçons, com o conseguinte amortecimento dos seus efeitos mais drásticos, acontecem, nesta modalidade de desenvolvimento anómalo, no prazo dumha ou duas décadas. As suas consequências tenhem que ser por força notórias e traumáticas.

Além da controvérsia política, mais bem minimizada polo poder da imprensa que historicamente exaltou na Galiza qualquer mega-projecto respaldado polo Estado, existem focagens académicas que deitam luz sobre a questom. Umha tese de doutoramento debruça sobre os efeitos da industrializaçom acelerada na vila do Eume. Em 2015, o sociólogo Xaquín Pérez Sindín defendeu na Universidade da Corunha Mega-proyectos y comunidad. Impacto de un proyecto eléctrico-minero desde una perspectiva sociológica. Pérez Sindín aplicou ao seu estudo de caso algumhas ferramentas teóricas que, em latitudes distantes, estudárom o chamado boomtown: o nascimento dumha nova sociedade a partir do esboroamento de estruturas comunitárias muito consolidadas, normalmente ligadas ao mundo agrário, com a chegada de planos de industrializaçom mineira. Mudanças sociais e culturais que adoitam decorrer no decurso de várias geraçons, com o conseguinte amortecimento dos seus efeitos mais drásticos, acontecem, nesta modalidade de desenvolvimento anómalo, no prazo dumha ou duas décadas. As suas consequências tenhem que ser por força notórias e traumáticas.

Ao contrário do que sucedera em várias comarcas da Galiza, onde projectos industrializadores na década de 70 motivaram estoupidos populares participados polo nacionalismo popular, As Pontes recebeu em silêncio -e ao que parece com grande aceitaçom- o projecto de Endesa. Sindín vencelha esta passividade com os efeitos perduráveis da repressom de 1936 que desartelhou com especial virulência o tecido militante deixando a comarca orfa de referências e estímulos associativos. Por outra banda, o franquismo iniciara já um processo expropriador na década de 40, com o intuito de construir umha fábrica de combustíveis. A paz social provinha da repressom e da miséria de posguerra; e contodo, tampouco nom dá ocultado contradiçons de fundo.

As cifras que medem o bem estar da zona -se é que o bem estar pode estar medido em cifras- som essencialmente certas, mas cingem-se ao núcleo urbano das Pontes e à populaçom directamente beneficiada polo projecto eléctrico-mineiro. Apesar do feche da mina e do debalar do emprego no sector, o concelho ainda recebe o 50% dos seus ingressos do imposto especial que paga Endesa, polo que as suas capacidades investidoras mantenhem-se intocadas.

Mas na realidade, existe todo um pano de fundo do boom industrial, e é mais escuro do que apontam as estatísticas. Estamos num concelho com grandes diferenças de renda e castigado polo avelhentamento. Entre 2001 e 2011, As Pontes foi o município galego com maior taxa de despopulaçom. Em datas recentes vinha à tona da actualidade, de maos dos meios empresariais, o fenómeno das aldeias desertizadas no Eume. As Pontes bate também o triste registo das aldeias com zero habitantes, o que apriori choca com a solvência orçamentária da cámara municipal. O canon municipal devandito fijo esvaecer as preocupaçons polos recursos, tam típica do rural galego. Sem embargo, este certo desabafo económico nom detém a sangria das aldeias. Num dos lugares do país que mais acentuou um certo “orgulho urbano”, nom parece lamentar-se demasiado que o campo passe a melhor vida. Apesar de As Pontes ser o concelho galego com mais kilómetros de pistas asfaltadas da Galiza e esteja bem pertinho de Ferrol. Nom som o isolamento nem a falta de serviços -típicas razons aduzidas para explicar o despovoamento- as causas que explicam o esvaziado do Eume. Há tendências mais fundas que ajudam a entendê-lo.

O esfarelamento do sector primário viviu-se de maneira mais intensa e acelerada que no resto do território rural galego. Na realidade, a implantaçom da central térmica assentou umha sociedade dual fracturada por salários, infraestruturas, poder adquisitivo e identidade de classe.

Dualismo e fractura

Dacordo com os dados sociológicos, a potência industrial das Pontes nom deveu numha maior diversificaçom económica do concelho. A criaçom de empresas foi débil e lenta, mantendo-se por baixo da média nacional; e o esfarelamento do sector primário viviu-se de maneira mais intensa e acelerada que no resto do território rural galego. Na realidade, a implantaçom da central térmica assentou umha sociedade dual fracturada por salários, infraestruturas, poder adquisitivo e identidade de classe. Apesar da relativa força nacionalista na nova classe trabalhadora, o lastro do auto-ódio pesou nesta comarca enormemente: o arredamento do agro foi maior, e a identificaçom social com o idioma espanhol ainda mais acelerada que em vilas de feiçom convencional. Explica-no-lo o pŕoprio Pérez Sindín diz-nos que, se compararmos as cifras de galego-falantes habituais nas Pontes com o dos concelhos da contorna, veremos umha diferença notável: “Segundo os últimos dados do IGE, referentes ao ano 2011, a percentagem de galegófonos situa-se por volta do 40-60%, o que contrasta com concelhos próximos de semelhante tamanho, como Vilalva, onde a percentagem é de entre 60% e 80%”.

Sindín chama também a levar em conta a hegemonia cultural dumha elite que o franquismo instalou já na década de 40, a dos engenheiros e técnicos foráneos a morarem em urbanizaçons totalmente segregadas, e que provavelmente aceleraram a castelanizaçom ambiental. Neste caso, o industrialismo continuou umha tradiçom centenária na Galiza, a da ocupaçom dos postos dirigentes por pessoal chegado de Espanha, com as consequências sociológicas já conhecidas.

A ideologia do crescimento económico indefinido coalhou com mais força em bisbarras como as que nos ocupa, que vivérom numha geraçom o sonho dos altos salários e o prestígio social do trabalho fabril. Porém, também esse modelo económico, noutrora bandeira do Estado fordista, vive os seus derradeiros estertores. A mina fechou, a central nom emprega mais de 300 trabalhadores, e o debalar da produçom fossilista é um segredo a vozes que nom permite pensar mais em termos de monocultura industrial. Lembra-nos Pérez Sindín que, no ronsel de muitas populaçons desindustrializadas, As Pontes também se acolheu a planos de ajuda específica e revitalizaçom, como o Plam Miner ou o Plano de Desenvolvimento co-participado por Endesa e a Junta; mas ambos os dous esgotárom-se já, sem resultados demasiado visíveis.

Porém, a lenda da mega-estrutura segue viva, e se se sonha com um futuro auge, fai-se nas chaves dum novo rexurdimento fabril. Por enquanto, nom há dados que a avalarem, nem tampouco umha realidade social dinámica que aposte em horizontes diferentes. Assim, esta certa atonia económica tem o seu correlato nos índices associativos, que nom revelam nenhuma vitalidade em especial; mais ainda, fora de entidades centradas na organizaçom do tempo livre e de actividades lúdicas, As Pontes nom viviu nenhum reverdescimento da iniciativa de base. Da mesma maneira que toda actividade económica à margem da central é fraca, todo pulo associativo à margem do sindicalismo fabril aparece mínimo e desartelhado. Além do meritório contraponto que colectivos ecologistas pugérom na década de 90 -como Ninho de Azor e Guerrilheiros das Fragas-, a dinámica mobilizadora e escassa, e qualquer crítica colocada à central, tímida ou enormemente matizada.

Da mesma maneira que toda actividade económica à margem da central é fraca, todo pulo associativo à margem do sindicalismo fabril aparece mínimo e desartelhado.

Para as ciências sociais, as comunidades com redes densas de pertença fornecem sentido e protecçom aos seus membros; a cara oculta, e adoito menos observada, é o efeito que causam naquelas pessoas que, por razons sociais, económicas, ou por mera vontade pessoal, decidem manter-se longe do seu acobilho. Entramos assim no terreno das patologias, lá onde a vulnerabilidade consubstancial a cada indivíduo se multiplica na soidade e na exclussom. Os sociólogos falam em downsides, os custos nom atendidos dos processos modernizadores. Se quigermos dar umha visom cabal das transformaçons vividas polas Pontes, acarom dos elevados níveis de renda, do importante poder de consumo e da capacidade económica de concelho, teríamos que mentar o seu reverso escuro: os elevados índices de alcolismo, depressom e suicídios, por riba da média galega, e especialmente agravados nas mulheres.

Cerceda: a pervivência do rural

Frente o processo silencioso das Pontes, a resistência das Encrovas contra as expropriaçons de Limeisa, a filial mineira de Fenosa que cobiçava o lignito da paróquia, perviviu na memória colectiva e mesmo se incorporou à épica nacionalista. O industrialismo apareceu na comarca de Ordes, a olhos de todos, na sua manifestaçom mais crua: o movimento forçado da populaçom para ocupar novecentas hectares de terras férteis, e a violência policial, registárom-se em imagens que som já iconas. No liderado de Moncho Valcarce encarnou-se a presença umha Galiza já esmorecida, que se aferrava com dignidade a umha forma de vida ameaçada de morte.

O documentário Encrovas a céu aberto (Xosé Bocixa, 2007) rememorou aquela luita e esculcou os efeitos da central de Meirama na comarca. E precisamente falamos das suas pegadas, mais de quatro décadas depois, com Ramón Vilar Landeira, jornalista e vizinho de Cerceda. “Aqui a mudança nom é quiçá tam abrupta, mas é mui funda no tempo”, diz Ramón, “porque vinte anos depois da instalaçom de Meirama, a Junta decide abrir Sogama também na nossa comarca”. No nosso caso, ademais, a imensa maioria dos obreiros da mina som naturais do concelho, a chegada de pessoal foráneo é limitada e reduz-se aos quadros da empresa; “esta fora umha das conquistas de Moncho Valcarce, que conseguira o compromisso de Limeisa para empregar gente da comarca”.

A atitude do trabalhador era ambígua e, por palavras de Vilar, “quiçá houvesse umha espécie de sindrome: a mesma empresa que apagara do mapa umha comarca inteira, que expropriara terras produtivas, era a que agora dava emprego”. Por outra banda, as relaçons laborais que predominárom a partir de entom em Meirama nom tinham nada a ver com as que viviam outros sectores de assalariados da comarca: “salários altos, direitos garantidos, e todo isto com umha capacidade de pressom importante das forças sindicais”. Um peom da mina podia ganhar três vezes mais do que um alvanel de qualquer empresa da zona, parecendo-se mais com o profissional de umha grande empresa de Vigo ou Ferrol que com o seu vizinho da paróquia.

O concelho mudou radicalmente desde o momento em que Fenosa paga um canon milhonário que dá umhas possibilidades económicas impensáveis na contorna. Nos anos 80 e 90, em pleno processo de esfarelamento do rural e de reconversom das exploraçons agrárias, Cerceda constrói infraestruturas que eram desconhecidas na Galiza da altura: polideportivos, rede de estradas ou escolas.

Porém, continha Ramón Vilar, “Cerceda nunca abandonou a sua alma rural, no bom e no mau. Por exemplo, e apesar do relativo boom económico, a natalidade tampouco decolou”, mesmo trabalhadores da mina, naturais do concelho, fam-se residentes de vilas cercanas, como Carvalho ou Ordes; também os comportamentos eleitorais -nomeadamente nas convocatórias nacionais e estatais- som os clássicos nesta parte da Galiza, com clara hegemonia do PP. “Há umha reorientaçom do voto cara o PSOE nas eleiçons municipais, mas isso nom muda o domínio geral da direita”.

“Cerceda nunca abandonou a sua alma rural, no bom e no mau. Por exemplo, e apesar do relativo boom económico, a natalidade tampouco decolou”, diz Ramón Vilar

A industrializaçom também produz umha realidade híbrida na que o substrato tradicional assimila fenómenos mui novidosos: “Eu recordo cousas curiosas às que lhe dou precisamente essa explicaçom industrial; por exemplo, que Cerceda seja o concelho galego onde começam a predominar grupos de rock, com mais bandas que em lugares que triplicam o seu tamanho. Nos 90 a mestura é mui chamativa, um podia topar a imagem dum moço da aldeia, de estética punki, a sachar na leira”.

Delinquência, patologias e suicídio: consequência ou acaso?

Ainda podemos entrar no capítulo mais escuro -muitas vezes beirando o tabu- das comarcas rurais industrializadas: o que tem a ver com a delinquência, as doenças mentais, e o suicídio. Um sarilho de muitos fios que nos obriga à prudência.

Pérez Sindín aconselha cautela, mas a um tempo chama a observar um fenómeno incontornável: “As fontes que consultei apontam a um incremento exponencial no concelho no número de actos criminosos registados no julgado de paz antes e depois do boom, superior ao 1.000%”. Trata-se de delitos menores, e o seu incremento permite tracejar paralelismos com o acontecido em municípios próximos na mesma jeira histórica, caso de Ortigueira. Com efeito, em todo o conjunto do Estado espanhol, a expansom delinquencial acompanhou o assentamento da democracia e da sociedade de consumo. Ainda agrava as Pontes esta tendência? “Cumpriria ampliar a mostra e seguir afundando no tema antes de extrairmos conclusons definitivas”, esclarece Pérez Sindín.

As estatísticas também se detenhem em aspectos mais sinistros. Como é sabido, a Galiza bate durante as últimas décadas as marcas históricas de suicídio no Estado espanhol, cifras ainda inexplicadas, mas que contodo amossam a existência dum drama surdo. Se em Espanha há sete suicídios por 100000 habitantes, na Galiza há 11; e se o nosso país representa menos do 7% da populaçom do Reino, produz o 9% de todos os suicídios.

Psiquiatras como Guillermo Rendueles -autor do livro Suicidio(s)– chama a nom dar umha explicaçom unidimensional do fenómeno, que aparece como umha derivaçom de factores muito diversos, nos que a singularidade irredutível de cada pessoa joga um papel fundamental. Na nossa terra, o também psiquiatra Quintanilla Ulloa escrevera em 1994 El complejo mundo del suicidio; o disparado dos índices chamara a atençom do estudioso ferrolao, que também reparara no buraco negro de Trasancos e o interior da província da Corunha.

Com efeito, é difícil evitarmos associaçons com as transformaçons sociais que estamos a debulhar. Segundo o Atlas de mortalidad en municipios de España (1984-2004), editado pola fundaçom do BBVA, Cerceda e As Pontes faziam parte do triste ranking dos seis concelhos mais suicidas da Galiza; a taxa cercedense de homens que se tiravam a vida superava um 169% a média estatal, e a das Pontes um 112%. Se descermos às estatísticas femininas, veremos que Cerceda supera a média espanhola num 211%.

Vilar Landeira, que tem estudado estes dados numha tentativa de conhecer a dinámica social da sua comarca, adverte contra a tentaçom de fazermos umha associaçom directa destas mortes com a indústria: “Eu temo que muitos destes concelhos tenhem um índice suicida já muito alto nas décadas anteriores, por isso a relaçom nom é tam clara; ora, eu si vejo a causa na mudança social que se opera mesmo antes do abandono massivo do rural. Eu mesmo, sendo meninho, nos últimos estertores das aldeias, lembro autênticos andaços de suicídios na paróquia e na contorna. Para um neno era todo um pavor que puidesse acontecer na própria casa”. Seja como for, o andaço continuava em pleno pico industrializador, numha Galiza rural sem serviços de saúde mental, e na que o apaziguamento das pessoas através das pílulas psiquiátricas nom fora ainda ensaiado.

Seja como for, o andaço continuava em pleno pico industrializador, numha Galiza rural sem serviços de saúde mental, e na que o apaziguamento das pessoas através das pílulas psiquiátricas nom fora ainda ensaiado.

Pérez Sindín questiona que se poida utilizar com rigor científico os termos “concelhos com tradiçom suicida”. “O suicídio é por riba de todo um fenómeno social, polo que me custa acreditar que se poida falar de tradiçons; como muito haverá factores sociais que persistem no tempo e que fam com que a taxa de suicídio se mantenha relativamente alta”.

Sindín afirma que existem estudos variados e rigorosos que tenhem detectado umha relaçom significativa, de causa-efeito, entre processos de boomtown, em lugares tam arredados como Estados Unidos e a Galiza. “É certo que o debate nom está de todo fechado, e apenas com dados de dous concelhos como As Pontes e Cerceda, nom devemos chegar a conclusons apressadas”.

Mas parece ficar claro que os gigantes industriais que remoérom terras, engolírom paróquias e mudárom de vez a vida de comarcas inteiras alterárom até as entranhas de milhares de pessoas.

Outras novas