O 17, día de Carvalho Calero

"Dedicar-lhe oficialmente um dia das Letras a Carvalho Calero eu consideraria-o uma ofensa"

ENTREVISTA | Isaac Alonso Estraviz

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“As pessoas que nacem entre o 24 de Outubro e o 22 de Novembro, vem a luz sob o signo de Scórpio. As que nacem entre o 23 de Novembro e o 22 de Dezembro, vem a luz sob o signo de Sagitário. Entre os rapazes de sexto curso do colégio que acabamos de obter o grau de bacharel, todos sabíamos qual era o nosso signo, e soíamos nomear-nos por ele. Eu som Sagitário. Rafael Martínez é Scórpio. Cando dous ou mais naceram baixo do mesmo signo, numerávamo-los segundo o dia do seu nacimento. assi, Filipe Antom era Leo I e Jacabe Golpe era Leo II. Ricardo Lores era Aquário I; Abelardo Pinheiro, Aquário II; António Toimil, Aquário III. Eu era o único Sagitário, e Rafael o único Scórpio; e por isto, e se cadra porque estes nomes soavam melhor, estes alcumes chegarom a ser mais populares no colégio que os nossos próprios nomes…”

[um fragmento de Scórpio, IX]

C. Alfredo Castromao, texto e fotos | Santa Mariña, 17 de setembro. Poucas veces somos conscientes de que a palabra cultura vén de cultivar. Os culturetas cutres do país non teñen nin idea disto. Son desertores do matadoiro ou do arado e cultivadores da miseria sectaria. Isaac Alonso Estraviz é todo o contrario, un verdadeiro cultivador da nosa cultura, un lexicógrafo labrego, teólogo e filólogo, que tanto percorre Galicia para escoitar falar á xente e elaborar o seu famoso dicionario, hoxe xa con case 140.000 entradas online, como sacha na terra, nese taquiño ben coidado onde hoxe recolle pementos, tomates, cabaciñas, remolachas e cenorias.

Estraviz ten as súas raizames familiares nas terras do Limia, entre Vila Seca e Escorna Bois (Trasmiras), Ábedes (Verín) e Folgoso (Sobrado dos Monxes), mais hoxe este home tranquilo vive, rodeado de libros, gatos e árbores froiteiras, nunha casa nun outeiro moi perto do santuario de Armea, en Santa Mariña de Augas Santas. Precisamente aquí tiña que vivir este druída, un home culto, infatigable traballador, sempre curioso, bo e xeneroso, un arraiano entre o Císter, Prisciliano e o panteísmo paisano.

Isto só é un pequeno anaco dunha entrevista posible con este gran conversador arredor da figura de Ricardo Carvalho Calero, ao fío desta sección para o adiante.gal, un novo medio de comunicación que chegou para ficar, coa forza telúrica dos bois cachenos turrando do arado castrexo. Vai só un petisco. Saiban vostedes que Isaac Alonso Estraviz dá para moito máis. Seguiremos escornando…

Cando conhece a Ricardo Carvalho Calero?

Literariamente estando em Osseira através do livrinho Sete poetas galegos (1955). Também através de Ramón Piñeiro que me falava sobre os trabalhos que estava a levar a cabo, especialmente sobre a História da Literatura que estava a fazer. Pessoalmente em 1965 em Vigo na apresentação de Cantigas de Escarnho e Maldizer de Rodrigues Lapa, publicadas por Galáxia.

Cal foi a tua relação com ele?

A minha relação ao começo foi um pouco distante ao estar eu por terras de Albacete e Madrid. Estudando em Madrid pediu-lhe Piñeiro uma carta de recomendação para os irmãos Fernández de Lugo para solicitar uma bolsa de estudos para ir eu a Alemanha e negou-se a dar-ma, porque, segundo ele, só as dava aos seus alunos. Como naquela altura havia muita gente que defendia uma escrita para o galego próxima ao português, todos os que defendíamos o mesmo coincidiamos em tudo deixando de lado questões de tipo pessoal. Carvalho Calero deu o passo definitivamente quando dous alunos: Ramón Pena e Anjo González Guerra lhe apresentaram uns trabalhos nesta linha. Ele, admirado, falou com José Luís Rodrigues, pareceu-lhe bem e fez-lhes um prólogo na mesma linha. A partir de aí foi cada vez mais para a frente, mas sempre numa atitude moderada. Segundo Ramón Piñeiro, o culpável do lusismo era José Luís Rodrigues que mais que galego parecia um português de Coimbra.

“Todos os que defendíamos o mesmo coincidiamos em tudo deixando de lado questões de tipo pessoal. Carvalho Calero deu o passo definitivamente quando dous alunos: Ramón Pena e Anjo González Guerra lhe apresentaram uns trabalhos nesta linha”.

Quando se ia publicar no 1983 o Dicionário NOS em cinco volumes pedi-lhe e fez-me um prólogo de três páginas. Tive algum problema com ele ao criticar aninho (anho) que ele confundiu como diminutivo de ano e respondi-lhe abertamente. Depois tivemos alguma cousa mais, como aconteceu em Ponte Vedra num encontro. Ao final do dia Fontenla e eu reuniamo-nos para elaborar um resumo do tratado durante o dia e apresentar ao dia seguinte aos assistentes. Num momento dado Fontenla empregou quando, eu disse-lhe que íamos ter problemas com Carvalho. Fontenla disse que nem se ia dar conta disso. Redigi pois o texto empregando quando. Ao dia seguinte ao chegarmos, já estava Carvalho Calero com o dedo índice sinalando o quando. Discutiu-se durante hora e meia se empregar quando ou cando. Ao final o professor Cristóvão propus votar a questão. Resultado: um voto a favor de cando de Carvalho e um voto a favor de quando meu. Todos os demais, incluido Fontenla, abstiveram-se. Ele ficou bastante chateado.

Isaac Alonso Estraviz

Isaac Alonso Estraviz

1935, Trasmiras (Ourense). Licenciado em Filosofia pola Universidade de Comilhas (1973), em Filosofia e Letras pola Complutense de Madrid (1974) e na mesma universidade em Filologia Românica (1977). Diplomado em Cultura e Língua Portuguesas pola Universidade de Lisboa, ano 1976. Doutor em Filologia Galega pola Universidade de Santiago de Compostela (1999) com a tese O Falar dos Concelhos de Trasmiras e Qualedro. É membro da Comissom Linguistica da Associaçom Galega da Língua, Vice-Presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa e do Boletim da AGLP. Autor do Dicionário NOS (1983) e do Dicionário da língua galega (1995); e, entre outros trabalhos recentes, de Conversas com Isaac Alonso Estraviz com o prof. Bernardo Penabade Rei (2013). E colaborações nos livros coletivos Cartafol de soños, Homenaxe a Celso Emílio Ferreiro no seu centenário (1912-2012) (2012), e "Recei contigo" Bóvedra cristián (2014).

Dicionário Estraviz

#Carvalho

“Num momento dado Fontenla empregou quando, eu disse-lhe que íamos ter problemas com Carvalho. Fontenla disse que nem se ia dar conta disso. Ao dia seguinte ao chegarmos, já estava Carvalho Calero com o dedo índice sinalando o quando. Discutiu-se durante hora e meia”. 

Em Ponte Vedra teve lugar o IV Encontro Internacional da Língua Galaico-Portugesa os dias 6-7 de dezembro de 1985. A mim encarregara-se-me apresentar uma palestra sobre ortografia para a Galiza. Eu elaborei um texto onde defendia Uma língua, uma orgorafia no qual defendia abertamente a mesma ortografia para galegos e portugueses, baseada em texto já anteriormente publicado por mim*. O texto foi assinado o 5 de dezembro de 1985 em Ferrol. A Carvalho Calero pediram-lhe também um texto sobre o tema. O tema surgiu que o que ele pronunciou foi totalmente contrário ao que eu tinha dito. Nem que soubéssemos um de que ia falar o outro e surgisse uma batalha entre ambos. Mas aí ficou tudo. Carvalho, aconselhado por Maria do Carmo Henriquez Salido, José Luís Rodriguez e Martinho Montero Santalha, negou-se a formar parte dos representantes galegos que iam assistir ao Encontro Ortográfico luso-brasileiro, que ia ter lugar na Academia Brasileira de Letras de Rio de Janeiro em maio de 1986. 

Em tudo o demais sempre nos relacionamos amigavelmente. Incluso fui ter com ele ao seu gabinete da Universidade. E sempre lhe tive um grande respeito e carinho, pois sabia que ele não era do comum. Quando concorreu para a cátedra da Universidade de Santiago, assisti a todos os atos em Madrid e expôs os temas com grande brilhantez.

Que posto ocupa a sua obra no sistema literário galego?

Desde o meu ponto de vista, poeticamente (Cantigas de Amigo e outros poemas), romancista (Scórpio) e de investigação (História da Literatura Galega), entre outras, é um dos melhores autores e literatos que temos na Galiza. Citei estes três livros, mais são muitíssimos os que editou.

Por que nom se reconhece máis o seu trabalho em Galicia?

Os galegos somos um povo raro: valoramos o de fora e menosprezamos o nosso. Normalmente os galegos triunfam sempre fora da sua terra, em Espanha e na emigração. Aqui tende-se sempre a desprezar o nosso.

“Desde o meu ponto de vista, poeticamente, romancista e de investigação é um dos melhores autores e literatos que temos na Galiza.”

Por que nom se lhe adicou ainda o dia das Letras Galegas a Carvalho Calero?

Por enveja. Mas cada ano que passa ele fica sempre por cima de todos e de outros ninguém mais fala passado esse ano. Ora, uns quantos, que não fomos alunos dele, subsanamos essa deficiência ao lhe dedicarmos (Fundação Meendinho) na Alameda de Santiago uma estátua, sem ajuda de nenhuma universidade galega. Os primeiros mil euros foram meus e os outros foram arrecadados por uns quantos amigos. Tenho a listagem em casa. Nunca a ninguém se lhe fez tal dedicação e hoje em dia dedicar-lhe oficialmente um dia das Letras Galegas a Carvalho Calero eu consideraria-o uma ofensa. Ele está por cima de tudo isso.

Cal foi o teu derradeiro encontro com ele?

Eu, uma vez metidos nas atividades culturais galegas por Galiza e Portugal, tratei muito a Carvalho Calero. Lembro-me de quando estivemos em Arcos-de-Valdevez. Ali falou-me do estado em que tinha a elaboração de Scórpio. Fiquei assombrado da sua memória ao recitar-me obras de teatro que representara amtes da Guerra Civil. O meu derradeiro encontro com ele foi em Santiago de Compostela uns dias antes da sua morte, o 25 de março de 1990. Vinha da Universidade e encontramo-nos com ele a minha companheira, Manuela Ribeira Cascudo e eu. Ele ergueu a bengala que levava e olhando para nós disse com uma voz potente: “saúde!”.

Se tiveras que definir com uma palabra a Carvalho cal sería?

Um homem íntegro.

 

* O texto foi publicado no número 1 da revista NÓS, janeiro-abril de 1986, pp. 19-23. No Encontro de Río estiveram Ernesto Guerra da Cal, José Luís Fontenla, Adela Figueroa e Isaac Alonso Estraviz.

 

O entrevistado

Isaac Alonso Estraviz

Isaac Alonso Estraviz

1935, Trasmiras (Ourense). Licenciado em Filosofia pola Universidade de Comilhas (1973), em Filosofia e Letras pola Complutense de Madrid (1974) e na mesma universidade em Filologia Românica (1977). Diplomado em Cultura e Língua Portuguesas pola Universidade de Lisboa, ano 1976. Doutor em Filologia Galega pola Universidade de Santiago de Compostela (1999) com a tese O Falar dos Concelhos de Trasmiras e Qualedro. É membro da Comissom Linguistica da Associaçom Galega da Língua, Vice-Presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa e do Boletim da AGLP. Autor do Dicionário NOS (1983) e do Dicionário da língua galega (1995); e, entre outros trabalhos recentes, de Conversas com Isaac Alonso Estraviz com o prof. Bernardo Penabade Rei (2013). E colaborações nos livros coletivos Cartafol de soños, Homenaxe a Celso Emílio Ferreiro no seu centenário (1912-2012) (2012), e "Recei contigo" Bóvedra cristián (2014).

Dicionário Estraviz

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