Da celulose à biomassa: Ence e o deserto verde

OS EFECTOS DO INDUSTRIALISMO - Capítulo 4

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Antom Santos | Lugo, 5 de dezembro.  Montes inçados de eucaliptos, urbanizaçom descontrolada, ramais de autoestrada e umha factoria muito perto da cidade que já se converteu em parte da paisagem. É a imagem que se oferece ao visitante na desembocadura do rio Leres; a feiçom contemporánea da que fora umha das rias mais produtivas da Galiza, sacrificada polo franquismo em favor dos planos florestalistas que mudárom a face do país em apenas cinco décadas. Com os planos eucaliptizadores da Junta submetidos a críticas crescentes, Ence procura a sua perpetuaçom valendo-se da maquilhagem verde e a compra de vontades. Conversamos com Anjo Torres e Pedro Alonso, activistas envolvidos na defesa da Terra.

Apesar de resultar um episódio pouco conhecido, um dos primeiros ciclos de resistência popular da Galiza da posguerra protagonizárom-no as comunidades rurais em luita polo monte. Enfrentados a umha primeira repovoaçom massiva que colidia com os usos tradicionais da mao comum, os vizinhos obstaculizárom no possível os alvores da indústria madeireira e logo celulósica.

O desenho da Galiza como viveiro florestal correspondeu aos engenheiros do franquismo que, através da coerçom e num contexto de desarticulaçom associativa, imponhem os seus planos a lume e ferro. A ideia do monte como monocultura madeireira era de todo alheia às comunidades tradicionais galegas, e por isso as primeiras vagas repovoadoras do Patrimonio Forestal del Estado recebêrom tal oposiçom popular. Corre a década de 40, e entre lumes provocados, pastoreios ilegais em zonas proibidas e formas de desobediência variadas, ainda ninguém imagina que a Ria de Ponte Vedra se vai converter no bastiom do florestalismo.

Perguntamos a Pedro Alonso, técnico ambiental e militante de Erva, sobre a materializaçom daquele velho plano. “Na realidade, diz-nos, a ideia dumha industrializaçom baseada na pasta de papel já germolava nos anos 20 e 30, mas é a ditadura quem a executa. Valorarám-se empraçamentos industriais em lugares como Vila Boa, Padrom…e ao final é Louriçám o lugar elegido”. Lá, soterrando um banco marisqueiro muito fértil, a quatro kilómetros da Boa Vila fundada por Fernando II da Galiza no século XIII, num dos portos comerciais e marinheiros mais importantes da Galiza, erguerá-se um bastiom do modelo económico franquista. “Quando se instala Ence como empresa estatal -diz Anjo Torres, membro da Associaçom para a Defesa da Ria– a lógica do regime abandona devagar a autarquia para apostar na linha da abertura económica ao exterior e a exportaçom”. A final da década de 60, a ortodoxia fascista começa a dar passo à maquilhagem desarrolhista dos anos do boom, e acarom da factoria de Ence, o Instituto Nacional de Industria instala Elnosa: o cloro era preciso para o branqueamento de papel, e como consequência deste processo produtivo, a Ria de Ponte Vedra começa a aturar uns níveis de mercúrio incompatíveis com a saúde humana e a riqueza marisqueira.

Quer nas coordenadas da autarquia da posguerra, quer nas chaves mais modernizadoras da Espanha exportadora e industrial, o modelo é o mesmo. “Estamos a falar dumha empresa que decide esta ubicaçom por umha decisom estatal. A vontade é a de utilizar recursos locais, neste caso o monte e a sua capacidade de produçom, ignorando as necessidades das populaçons da contorna. Remata-se com milheiros de postos de trabalho do sector marisqueiro, e orienta-se a produçom para a exportaçom. Para os moradores da zona ficam os problemas ambientais e sócio-económicos derivados da poluiçom da Ria e da monocultura de grandes áreas”. Quando se produz umha mudança na matéria prima da indústria papeleira, nas décadas de 70 e sobretodo de 80, a associaçom entre Ence e o eucalipto começa a soldar-se: “nessa etapa de transiçom vai-se conformando a paisagem florestal que hoje conhecemos; reduze-se o cultivo de pinheiros, e o oeste da Galiza vira um enorme eucaliptal, e que hoje avança cara o leste graças à promoçom do nitens, a variedade que resiste as giadas”, explica Alonso. Todos os problemas derivados (aumento do risco de incêndios, recuar dos usos agrogadeiros, perda de biodiversidade, desecaçom de aquíferos) originam-se num conglomerado industrial que incide como poucos no conjunto do modelo territorial da Galiza nom urbana.

Por muito esforço propagandístico que Ence realizasse ao longo das suas seis décadas de existência, para Anjo Torres, a conclusom é talhante: “cada quem pode denominar o modelo como quiger, mas os factos som estes, e nem os postos de trabalho nem o dinheiro tirado da venda de madeira por parte de proprietários particulares (que em todo caso nom é um meio de vida mas um complemento) justificam um modelo industrial que é um freio para umha alternativa sustentável a longo prazo e que longe de dar vida ao rural, contribui para o seu abandono”.

O Pedregal de Irimia arrodeado de eucalipto ‘nitens’. Na imagem superior, montes dos Os Ancares, co eucalipto ‘nitens’ diante. Fotografias: @APDR

Dano ambiental: informes trucados e directivas incumpridas

Em sectores sociais diversos, e que sobardam com muito a Galiza organizada e mobilizada, a consciência do carácter daninho de Ence-Elnosa tem-se extendido década trás década. “Falamos dumha empresa que tem umha condena em firme por delito ecológico e danos continuados na saúde das pessoas no ano 2002”, indica Anjo. Isso explica o intenso esforço propagandístico que a corporaçom leva realizado no que vai de século, acompanhado sempre da defesa das bondades do eucalipto. O discurso corporativo repite com insistência que, depois de possíveis irregularidades iniciais, agora si se cumprem os parámetros estabelecidos com um cuidado escrupuloso polo meio e as pessoas. Para Pedro Alonso, tais declaraçons nom resistem o mínimo exame crítico: “do ecologismo, levamos anos a dizer que para fazer umha avaliaçom científica dos índices de poluiçom de Ence, devêssemos ter acesso a registos organizados e fiscalizados por umha entidade independente. Isto é, que nom se permita a toma de mostras o dia e a hora que a empresa decidir, senom que auditores com apoio institucional intervenham surpresivamente, sem prévio conhecimento de Ence, e midam a poluiçom real, sem argalhadas”.

Com efeito, embarcada numha batalha permanente para manter a sua opacidade, a papeleira tem desenvolvido as suas próprias estratégias para furtar-se à vigiláncia das pessoas e colectivos preocupados com a natureza. “Se hoje quero aceder através do seu web corporativo ao nível de produçom da plante, e portanto tirar conclusons dos índices poluintes de Louriçám, nom podo”, engade Alonso: “nom desglossam os dados, e vemo-nos na obriga de desglossar as informaçons globais das factorias de Ponte Vedra e Návia”.

E apesar das cortinas de fumo, o movimento popular tem feito um esforço de esculca importante para deitar luz sobre as cifras que, normalmente, dissuadem o leitor convencional de tirar conclusons mais profundas. Segundo os dados que maneja a Associaçom para a Defesa da Ria, Ence incumpriu até há bem pouco os parámetros de Sólidos em Suspensom (SS), Demanda Química de Oxigénio (DQO), Demanda Biológica de Oxigénio (DBO), Nitrogénio e Fósforo, estabelecidos em normas de aplicaçom como a Diretiva 91/271/CEE de águas residuais urbanas, e ainda hoje os incumpre para DQO. Para Torres, só a toleráncia política com os interesses empresariais pode explicar esta laxitude nos controlos: “A empresa mesmo desrespeita o limite estabelecido para a DBO no seu próprio título concessional de 1958. As Autorizaçons Ambientais Integradas concedidas a Ence, a primeira em 2008 polo governo bipartido PSOE-BNG e as posteriores polo governo do PP, estám feitas à medida da empresa e estabelecem limites muito por riba dos que fixa a Directiva, para que a fábrica poda cumpri-los (algo que, ainda assim, com os dados que nos proporciona a Junta, nom sempre consegue). É escandaloso que as autorizaçons ambientais atuais sejam mais permissivas que a concessom de Ence em 1958, em pleno franquismo”.

Nom é doado para o leigo orientar-se nesse sarilho de dados, declaraçons cruzadas e solapamento entre distintas instáncias institucionais. Mas se seguirmos as hemerotecas com certa atençom, veremos como os aliados políticos da papeleira, valendo-se do caso omisso e do silêncio das grandes corporaçons mediáticas, desobedecem as mais altas instáncias. Também no conflito ambiental as elites incumprem sistematicamente as suas leis enquanto as classes populares soem ser penalizadas. “Num início -continua Anjo Torres- Ence e a Junta alegam que a directiva da UE nom é de obrigado cumprimento. Quando a Comissom Europeia manifestou o contrário, e em 2016 estabeleceu que a norma era vinculante, a resposta da Junta e do governo espanhol foi ignorar este facto seguir a defender que nom é de aplicaçom”.

“É escandaloso que as autorizaçons ambientais atuais sejam mais permissivas que a concessom de Ence em 1958, em pleno franquismo”, diz Anjo Torres.

Cooperativa láctea de Frades, com anúncio de venda de eucalipto.

Do industrialismo de Estado às portas giratórias

O florestalismo espanhol instalou-se na Galiza ao alento da iniciativa de Estado que, através do Instituto Nacional de Indistria e inspirado polo fascismo italiano, desenvolveu a ditadura na sua primeira década de vida. Desde entom, aquele capitalismo tutelado, quase ortopédico, acompassou-se às exigências neoliberais da globalizaçom. Mas na realidade, os seus actores som os mesmos: elites quase hereditárias, perpetuadas no tempo pola engrenagem ditatorial e a democracia nominal dos tempos actuais: “Pode-se dizer que o PP tem as suas próprias peças no entramado florestal”, diz Alonso. No conselho de administraçom de Ence figuram grandes nomes da política oligárquica. “Aí temos os exemplos de Carlos del Álamo e Isabel Tocino, que das responsabilidades institucionais passam à dirigência do conglomerado pasteiro. Mais um exemplo das portas giratórias e da política de favor com empresas amigas“, ratifica Anjo Torres.

Tampouco o papel de um outro dos pilares do Regime, o PSOE, é secundário na adjudicaçom do papel de reserva eucalipteira para a Galiza. “Importantes figuras do socialismo, nomeadamente Paco Vázquez, fôrom valedoras desta indústria”, recorda Pedro Alonso. Torres ratifica esta análise, acrescentando aliás o jogo a duas bandas -a do discurso e a dos feitos- que caracteriza este partido: “como é habitual neles, a postura é sempre ambígua, quiçá pola necessidade de contentar umha parte do seu eleitorado que pode ter mais simpatia polo ecologismo ou preocupaçom com os problemas ambientais. Oficialmente defende a saída da Ria e o translado a outra localizaçom dentro da Galiza, se bem a experiência do bipartido na Junta nom dá para termos grandes expectativas na hora da verdade”.

Em qualquer caso, e à margem do desenlace judicial que vai dirimir a prórroga da concessom dos terrenos à pasteira, a cúpula empresarial do sector demonstra umha grande capacidade de pervivência e adaptaçom aos tempos. A inícios do século XXI, e aproveitando a febre privatizadora da era Aznar, Ence deixou de ser empresa estatal e passou a maos de Caixa Galicia; hoje está participada maioritariamente pola empresa Retos Operativos XXI de Juan Luis Arregui, um capitalista ligado ao Ibex 35 através de Iberdrola ou Gamesa.

“Oficialmente [o PSOE] defende a saída da Ria e o translado a outra localizaçom dentro da Galiza, se bem a experiência do bipartido na Junta nom dá para termos grandes expectativas na hora da verdade”, considera Pedro Alonso.

Às portas dum colapso ambiental reconhecido mesmo polos apologistas do sistema, Ence tem reconvertido a sua vocaçom de monocultura pasteira para apontar outro alvo: a energia. Com a consciência generalizada do debalar dos recursos fôsseis, a empresa, rebaptizada agora como Energia y Celulosas, desenha a instalaçom de até quatro plantas de biomassa no ao longo do Estado; em Ponte Vedra, a produçom papeleira somaria-se à energética. “Estám a apostar muito forte nesta reconversom -esclarece Pedro Alonso- prevendo que no ano 2023 o 25% da produçom da empresa seja energia. Para isso precisam constáncia na produçom e fornecimento de madeira de eucalipto, e eis a preocupaçom da Junta do PP e da empresa por assegurar a extensom eucalipteira no nosso território”. Ence incorpora-se assi a um bloco empresarial, o do chamado ‘capitalismo verde’, que vê nas riquezas naturais do país umha oportunidade de ouro para incorporar novos ramos de lucro à sua actividade.

Ence, privatizada na era Aznar através de Caixa Galicia, prevê que no ano 2023 o 25% da produçom da empresa seja energia. Para isso precisam constáncia na produçom e fornecimento de madeira de eucalipto.

#industrialismo

Conversa na lavadora

Decrecer non significa volver ao pasado, renunciar aos avances. Mais quizais si signifique volver ao pasado para observar o que antes era obvio.

Procurando a reaçom no tempo de desconto

Em 2018, com registos de quecimento climático inauditos e com o sobardamento do pico do petróleo reconhecido mesmo pola Agência Mundial da Energia, a comunidade científica fala de ponto de nom retorno de consequências imprevisíveis. Entre o autismo dos mais e o activismo duns poucos, também a Galiza tem que afrontar um cámbio de época que traerá enormes desafios.

Central das Pontes que Endesa abriu há 42 anos, aproveitando os jazigos de lignito.

Das Pontes a Cerceda: a cara oculta do milagre industrial

Áreas esquecidas, populaçons deprimidas e generosos políticos que, de braços dados com corporaçons transnacionais, mudam a miséria em fartura e sobem as periférias ao comboio do progresso. Eis a narraçom simplória do milagre das mega-infraestruturas industriais. As Pontes de Garcia Rodrigues nom pode dissociar-se da imagem dumha cheminé colossal de 315 metros de altura que domina o horizonte do interior da comarca.

Um movimento forte e paciente

Anjo Torres manifesta que nom se pode entender o recente decreto de feche de Elnosa sem o activo movimento popular que germolou na Ria há três décadas, e que desde entom leva dando exemplo de perseveráncia e trabalho metódico a prol do bem comum. A batalha contra a planta de cloro, ganhada recentemente por procedimento judicial, levou muitas pessoas a renovar a sua esperança: quiçá a APDR e o conjunto da cidadania organizada poderia ajudar a revogar, com pressom social, a ajuda institucional e a apresentaçom de recursos, a prórroga de Ence. Torres prefere manter-se na cautela: “nós exigimos ao governo que revise de ofício as decisons que levárom à prórroga, dadas as irregularidades detectadas, mas as decisons judiciais tampouco som alheias às pressons e à capacidade de pressom de Ence na capital do Estado. Acho que temos por diante ainda umha longa etapa de luita contra a planta”.

Porém, esse aparente empate técnico nom deve ocultar umha realidade da que toda a Galiza consciente se orgulha: a capacidade de conscienciaçom e incidência da APDR. Anjo Torres valoriza as três décadas de andaina: “nas luitas em defesa do território e do ambiente é habitual que haja resposta ante projetos nocivos antes de estes se materializarem, em ocasions vencendo e noutras nom, e no segundo caso o que soi suceder é que a populaçom passe a resignar-se e a conviver com a fábrica, central ou mina que for. É menos habitual que umha luita em inferioridade de condiçons como esta se mantenha viva durante tanto tempo e para isso o fundamental é a organizaçom e a mobilizaçom, nom um apoio institucional que é transitório”.

Apesar da compra de vontades e da conversom da imprensa empresarial em boletim de propaganda, o discurso pouco rigoroso da defesa dos postos de trabalho nom coalhou num sector importante do povo pontevedrês, e isto só pode ser explicado pola imbricaçom da APDR no mundo associativo. Assim, se Ence tem comprado clubes desportivos, confrarias ou colectivos de signo variado, Defesa da Ria tem ganhado, sem mais recursos que a razom e a acçom, o apoio de associaçons vizinhais, agrupaçons dos sectores produtivos, partidos políticos e sindicatos.

Os mais de 600 sócios e sócias permitem autonomia financeira e a contínua gravitaçom na rua. Ante a pergunta de se o futuro da Ria se pode cifrar numha mudança institucional, Anjo é claro: “se nom há vontade e mobilizaçom por parte do povo, a luita nom se vai manter nem vai avançar; e tampouco nom podemos depender de que haja governos mais sensíveis. As instituiçons só tomarám decisons contra a presença de Ence e Elnosa se o movimento social é forte”.

Apesar da compra de vontades e da conversom da imprensa em boletim de propaganda, o discurso da defesa dos postos de trabalho nom coalhou num sector importante do povo pontevedrês, e isto só pode ser explicado pola imbricaçom da APDR no mundo associativo.

Desenhando um deserto verde

Pedro Alonso percorre os montes do país polo seu trabalho de técnico ambiental e lá, sobre o terreno, acumula razons contra o modelo ambiental e produtivo do capitalismo extractivista. No passado lustro, foi testemunho de como o eucalipto, que se detinha nas abas occidentais da Dorsal Galega, passava a fronteira do interior. Hoje inça já as estribaçons das serras orientais, esses espaços que todos temos na retina como representaçom da Galiza mais pura. “Nom podemos esquecer que Ence é apenas umha parte do problema. Quero dizer, que independentemente do que passar com a planta pontevedresa (e todo parece indicar que vai permanecer por enquanto na sua ubicaçom), a aposta eucaliptizadora continua”.

Alonso incide em que a indústria celulósica é um exemplo de livro da economia de escala: a maior produçom, menores custos; daí a importáncia de tomar mais e mais porçons de território galego, for através de compra directa de terreno, for através de convénios com os proprietários rurais. “O processo industrial pode culminar-se em Ponte Vedra, pode culminar-se em Návia, ou pode culminar-se numha outra factoria, mas o que cumpre ter claro em que a extensom da monocultura vai continuar enquanto nom se lhe ponher freio”.

A biomassa nom suporia mais do que a aceleraçom desse processo que decorre diante dos nossos olhos desde os primórdios da Galiza autonómica: “a indústria do papel precisa completar o ciclo de crescimento dos eucaliptos em 12 ou 15 anos; a biomassa, pola contra, ao requerir um abastecimento mais rápido e constante, recorre a talas aos 5, 6 ou 7 anos. Todo seria muito mais vertiginoso, e a indústria necessitaria controlar mais extensom”.

Eucaliptos no val do río Eo (río Rodil). Acima, proteste em frente a Ence neste verão.

O empobrecimento ambiental e a ameaça à diversidade produtiva som alguns dos motivos que os críticos levam esgrimindo durante muito tempo, ante a surdeira da Junta e de boa parte do sector florestal, cativado polo brilho do negócio rápido. Porém, Alonso ainda acrescenta outra reflexom preocupante, em absoluto exagerada: “à margem do debate ambiental, no que à eucaliptizaçom diz respeito, devemos falar de perigo para a gente. Acho que o caso dos incêndios florestais em Portugal, ou da vaga que padecêmos no passado ano, falam por si sós”.

Com efeito, no vizinho do sul, as vítimas mortais dos lumes supugérom um ponto de inflexom na valorizaçom acrítica do eucalipto. Na Galiza, com previsons de mudança climática que apontam a veraos mais quentes e mais dilatados no tempo, e com episódios reiterados de seca, os centos de milhares de pessoas que moram no rural à sombra dos eucaliptais começam a mirar com outros olhos essa galinha dos ovos de ouro que assegura lucros numha década.

“O mais triste de todo isto é que há alternativas, e aliás alternativas rendíveis, mas precisam de apoio institutucional”, diz Pedro Alonso: “e hoje o único apoio vai para o eucalipto”. A racionalizaçom das propriedades, a constituiçom dum banco de terras e umha agência de investimentos florestais que ajude financeiramente, som as chaves que para Alonso poderiam tirar-nos do beco sem saída. “Há dúzias de possibilidades num uso diverso dos montes, da micologia às madeiras nobres, passando polos frutais. Mas o proprietário precisa conhecer as alternativas, que hoje estám silenciadas polo lobby eucalipteiro, e sobretodo precisa dumha segurança económica que só lhe poderiam dar as instituiçons públicas”.

“O processo industrial pode culminar-se em Ponte Vedra ou pode culminar-se numha outra factoria, mas o que cumpre ter claro em que a extensom da monocultura vai continuar enquanto nom se lhe ponher freio”. Ambientalistas alertam: “coa biomassa todo seria muito mais vertiginoso, e a indústria necessitaria controlar mais extensom”.

Mudança à vista?

O monopólio institucional da direita espanhola, somado à conversom do agro num vasto deserto demográfico ocupado por monoculturas, parecem traçar um panorama sombrio e sem assomos de melhora. Ainda, quiçá devêssemos olhar além da superfície para ver a realidade que bole. Anjo Torres salienta que nas terras do Leres, o avanço da consciência foi notável desde os já afastados inícios da APDR em 1987, o que permite um optimismo razoável.

Pedro Alonso, com experiência de anos no activismo ecologista, fai extensível a reflexom ao ámbito nacional: “estamos num ponto máximo de sensibilizaçom popular no que diz respeito aos efeitos nocivos da eucaliptizaçom; umha sensibilizaçom que medra. E tristemente, ainda medrará mais quando os perigos associados aos incêndios se fagam mais palpáveis, pois podemos viver cenários muito duros”.

De como se coloquem as alternativas, cotinua Alonso, dependerá o seu sucesso: “muitas vezes cai-se na tentaçom de fazer da questom florestal um arma arreboladiça, um motivo de confronto. Mas eu penso que com umha focagem transversal, que inclua muitos sectores produtivos e políticos, o êxito será maior”. Dum modo ou outro, também na questom do monte, a Galiza pareceu entrar numha época nova, de desenlace incerto, mas de segura controvérsia: “Obviamente, eu acredito em que um relevo institucional poida mudar as cousas de verdade”, confia Alonso. “Mas com relevo ou sem ele, é a própria tomada de consciência da sociedade galega a que vai obrigar a mover fichas aos governos. Disso estou certo”.

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