Louvança do vinho do Ribeiro

Ricardo Carvalho Calero

Discurso como pregoeiro da XVII Feira do Vinho do Ribeiro. Ribadávia, 30 de abril de 1980.

Publicado originariamente em: Ricardo CARVALHO CALERO, Letras galegas, Associaçom Gale-ga da Língua (AGAL), A Corunha 1984, 349 pp. «Primeira parte»: «14. Louvança do vinho do Ribeiro», pp. 127-131.

Em Santiago de Compostela, desde a Carreira do Conde à Praça de Maçarelos, o trajecto é curto . Nas circunstâncias em que hoje se desenrola o tránsito, fai-se em tempo mais breve aquel caminho de a pé que sobre rodas. De por parte, a persoa que vos fala, que tem o seu domicílio naquela Carreira e o seu posto de trabalho naquela Praça, carece de rodas sobre as que rodar. Todos os dias, entre oito e nove da manhá, pola Senra, a Fonte de Santo António e o Tránsito dos Gramáticos, acede ao Mercado Velho para entrar, sob o imponente escudo de armas que brasona a fachada, in eremum, quer dizer, na sua Faculdade de Filologia, o edifício que para Colégio de Exercitantes erigiu o Arcebispo Yermo, segundo projecto de Lucas Ferro. In eremo reza a lenda do brasom, lembrando, em admoniçom equívoca, o nome do fundador e a austeridade como de eremitório que deve reger a vida do que se exercita na disciplina eclesiástica, e, segundo a opiniom de muitos, na própria disciplina universitária.

Mas, do mesmo jeito que o deserto pode florecer em rosas, porque o inundem as fontes do milagre, como na lenda dourada, ou o irriguem as águas conduzidas de longe por poderosas obras hidráulicas, como nas terras de Israel, onde hoje vivem, se calhar, descendentes dos valentes judeus que defendêrom a Porta Nova da vossa vila contra os besteiros do Duque de Lencastre, assi tamém a nobre sobriedade do exercício espiritual e da dedicaçom docente é compatível, em clássica alternáncia aristotélica ou em romántica síntese hegeliana, com a doce lediça da vida, com o benefício alegre dos dons da natureza, com o usufruto saudável dos bens temporais que nutrem com o seu zume assoalhado o sustento material do home, obra de luz e nom de trevas, como duplamente justificada pola criaçom e pola encarnaçom.

Desta arte, a cifra aquitectónica do urbanismo compostelano resulta símbolo do côncavo e o convexo da esfera da uniom substancial do home, na formosa e melancólica Praça do Mercado Velho, com os seus pradairos e o seu magnólio, onde cantam os melros do solpor, porque ali junto, acarom dos muros que ergueu a religiom e hoje povoa a ciéncia, se abre a porta de Maçarelos, a única em pé das sete portas que davam acesso ao recinto da cidade nos tempos descritos polo Códice Calixtino, porta que se abria aos caminhos do Sul, aos caminhos do Ribeiro, a rota de Ribadávia, porta por onde, no lombo das mulas de ajôujeres cacarelos e estribilhantes, conduzidas por arrieiros de altas vozes, o precioso dom das videiras entrava na cidade: pretiosos Baccus venit in urbem.

Todos os dias vejo eu a Porta de Maçarelos, a porta que, nos caminhos do tempo, abre Compostela a Ribadávia, a porta por onde Ribadávia entra em Compostela, e onde umha inteligente decisom administrativa fijo que se fixasse a placa que recolhe a formosa metonímia do Calixtino: pretiosus Baccus, o rico dom dionisíaco, o loiro ribeiro medieval, hoje –renovadas as cepas– arreiganhado no mesmo sábrego, madurecido debaixo do mesmo sol, agarimado polo mesmo rio, saudado polos mesmos vimieiros, a cambiar arrecendos de vida e cintilaçons de luz com as mesmas pavias.

Nesta celebraçom, pois, de hoje, em que, por carinhosa cortesia do Concelho de Ribadávia e da Universidade de Compostela, me corresponde oficiar, como outros colegas meus o figerom antes, num rio dionisíaco, sinto-me suficientemente justificado. Pois, ainda que a minha fasquia nom é –julgo– a de um Otero Pedraio, a de um Cunqueiro, a de um Rodríguez Gonçález, escritores que brilharom como glossadores opulentos, generosos e imaginativos das graças e riquezas do nosso agro, do bom jantar e do bom beber, dos produtos da nossa terra que alegram os nossos coraçons e levam polo mundo o nosso nome, hai umha tradiçom humanística que, sem necessidade de fazer profissom de epicureísmo, ainda mantendo-se na petrarquesca e herreriana devoçom platónica, eleva o seu canto à glória das rosas e das vides, das reconhecidas como benéficas entidades divinas, às que se pode amar como realizaçons da ideal beleza, da eufória ideal, acaroando-as respeitosamente aos nossos beiços, ainda renunciando a abusar do seu ar-recendo e do seu lábio.

Da outra banda, a Compostela em que vivo e a Ribadávia em que agora ergo a minha copa de cordialidade verbal para o brinde em honor da flor do vinho, da palma da vinha, nom só se comunicam através da Porta de Maçarelos –e todas as entradas de hoje na cidade apostólica– pola presença ilustre dos caldos do Ribeiro na mesa familiar e hosteleira da metrópole galega. Tendo sido Compostela o centro da história de Galiza na época medieval, cando o primeiro senhor do reino era o seu Arcebispo, ambas as vilas, mália aas muitas léguas que as separam, estiverom ligadas por muitos vínculos além dos económicos; vínculos religiosos e políticos que determinarom muitas vezes a isocronia dos seus latejos. Compostela, empurrada pola mao poderosa do seu destino católico, quer dizer, ecuménico, tivo de medrar mais a partir do medievo, tivo de transformar-se, de fazer-se renacente e barroca, neoclássica e romántica, mentres que Ribadávia, nom muito menor que Compostela nos alvores da sua existência documentada como cabeça da Castela galega, permaneceu em maior medida no seu medievalismo, fiel ao seu carácter militar e feudal, confinada até tempos modernos no seu recinto fortificado com catro portas e no seu arrabalde encostado na muralha, o que nom significa que o sangue das suas videiras nom circulasse além das terras do seu vale, embarcando as suas barricas de treixadura em Baiona ou em Vigo com destino aos portos da Flandres e Inglaterra.

Ribadávia, como Compostela, foi das vilas galegas mais afectadas pola grande revoluçom demográfica do século XIV, cando, morto em Montiel o rei Dom Pedro, as mercês henriquinas implantarom no país umha nobreza foránea, que se em Santiago ameaçou e contestou o senhorio do Arcebispo, em Ribadávia, que era vila real, suplantou a influência das linhages indígenas dos Nóvoas, Pugas e Moscosos, entregada ao senhorio dos Sarmientos, logo condes, de nome tam próprio para exercer o mando em terras de bacelo, mas, com o seu ditongo castelhano, indicativo da profunda alheaçom que se iniciava na fasquia da nossa língua. E nas postrimarias do medievo, cando lavradores, mesteirais e fidalgos se alçam irmandados contra a alta nobreza feudal, e os “condes tolos” levam ao cume a anarquia senhorial antes de ser reduzidos pola autoridade dos Reis Católicos, se a figura lendária de dom Pedro Álvarez de Soutomaior fijo dos paços e as ruas de Ribadávia tabulado das suas façanhas entre homéricas e histriónicas, foi nas alturas da Almáciga, aforas de Compostela, onde o terrível bastardo, o Pedro Madruga ma-treiro e diligente, decidiu, com a impetuosa carga da sua cavalaria, a vitória final contra os Irmandinhos.

E agora me decato de que o meu discurso, que do ponto de vista da composiçom semelhava nos começos, pois todo o dito pode parecer exórdio, decorreu por umhas cales que me permitiriam quase que pôr-lhe o ramo com mui poucas palavras de mais. De jeito mais ou menos satisfactório, tenho apresentado o meu passaporte para entrar na vila, tenho quase sugerido ter, como vizinho de Compostela, um a modo de direito de progénie na flor gentil da Ávia, a Florávia que Otero bautizou. Tenho-me reclamado da minha condiçom de humanista –ainda que humilde– para fazer umha louvança decorosa e comedida do alegre dom de Baco, que desata o riso da mocinha viçosa e acende umha faísca de vida nos olhos do petrúcio vedraio. Mas ao teimar para legitimar a minha presença perante vós, tenho misturado à descriçom dos riscos que conformam a minha credencial, alguns que desenham o vosso semblante. A beleza geórgica do Ribeiro, a formosura tam antiga e tam nova de Rivadávia, o lábio engaiolador dos caldos galegos receberom de mim, como rebentos que abrolhassem ventureiros de umha cepa retorta sem cultivo, alguns galanteios marginais, que nom soubem esladroar com a podadeira. Sirvam-me de adianto na quota de saudaçom que nesta feira me cumpre dirigir à terra que o Ávia rega e à capital que a coroa, aos regedores que a administram, aos lavradores que a bordam e aos romeiros que a visitam.

Detido um instante neste canto do tempo, como no do Preguntoiro compostelano onde é fama que o pregoeiro do Concelho deitava os pregons das autoridades, eis-me, pregoeiro da XVII Feira do Vinho do Ribeiro, sucessor de ilustres colegas, prosélito, que nom rabino, da vossa sinagoga, oferente profano, que nom hierofante, do vosso ledo culto, a enxergar as últimas adoas do meu rogo, devotas palavras de peregrino obrigado, que se acolhe ao pórtico da vossa glória e é honrosa e indulgentemente recebido polo cabido da vossa egrégia Corporaçom.

Velaqui que o vinho do Ribeiro, como um deus agrário que reveste mil formas, se nos amostra em todas as suas variedades, em todas as suas manifestaçons, com a sua gradaçom de cores, arrecendos, lábios e envases. O grande órgao do Ribeiro, com o seu rico teclado de graves e agudos, brancos e tintos, densos e difusos, apresenta-se em toda a sua opulência para ser pulsado polas maos adoitas do catador, que sabe arrancar a esse teclado umha sinfonia para o gosto que equivale à sinfonia para a vista que oferece decote o vosso vale, com o cambiante triunfo da cor dos pámpanos segundo a sazom, que vai do verde tenro ao verde escuro, do ouro pálido ao ouro velho, do vermelho ao púrpura, do violeta ao morado, do cobre ao prata, do sol nacente ao solpor. O Ribeiro, em vinhos, em vinhas, em paisage, em humanidade, em arte é a mais pura exaltaçom do Barroco galego. Os pámpanos de esmeralda nos lóvios, como motivos ornamentais de um retábulo de igreja campesina, tenhem a mesma majestade risonha e serena das garcetas, das tranças femininas das vindimadoras, cabeleiras pesadas de grave negro azulado ou angélicos anéis de riços obriços, que nas páginas de Otero Pedraio cantam ledas cantigas entre o zoar das vespas ao redor dos culeiros onde os bagos acougam.

O vinho do Ribeiro de Ávia, o rei dos vinhos galegos, tem, justamente, umha magnífica projecçom literária. Cita-o Rosalia muitas vezes, cantou-no expressamente um poeta ribeirám, Eládio Rodríguez Gonçález. Mas as citas superiormente expressivas, as páginas em maior medida ajeitadas temo-las de procurar em Otero Pedraio, congenial na sua opulenta imaginaçom ornamental de grande escritor barroco, gozador desde neno, nos recantos da encosta de Canedo, da cromática das vinhas outoniças, em que o sol alapeia faíscas semelhantes às que sobem e baixam polos banzos dos socalcos de Ribadávia; congenial, digo, na sua generosa condiçom de tecedor de grinaldas de tropos, com a riqueza de ácios, com a bençom de pámpanos, com a convulsom laocóntica de sarmentos e varas que na fastuosa ribeira do Ávia cristalino, baixo a esculca da atalaia de Pena Corneira, campa na manhá loira que alumia o faiscante sol de abril.

Pantelas, o velho herói de várias narraçons de Otero, o home que chegou a encarnar o espírito do vinho, figura real elevada pola arte do senhor de Trasalva à categoria de mito, poderia ser glorificada como a forma antropomórfica do vinho galego e, se houvesse nestes tempos a comunicaçom cultural entre o artista e o povo que conheceu a Atenas do ditirambo e a tragédia, nom caberia descartar a possibilidade de um culto em que o pagao e o cristao, o erudito e o folclórico se fundissem num complexo símbolo expressivo de umha das grandes forças da nossa natureza, poderosa pujança, demoníaca presença agrícola, santo padroeiro do pobre vinhador que se ajoelha no socalco, e na adega impetra do dono do universo a protecçom para as suas vides contra a névoa que amera, a saraiva que apedra, o fungo que seca, a geada que queima, o rapaz que furta e o trabuco que grava.

O grande poema do vinho galego é A lagarada, a tragédia da vindima, com a sua grandeza dionisíaca, em que, como nas Bacantes de Eurípides, se dramatiza o poder numénico do mosto. Por esta obra, à vez realista e simbólica, se queredes de um realismo mágico, Otero Pedraio inscreve-se no cánone dos maiores dramaturgos da nossa terra. É umha obra para representar ao ar livre, em tempo de outono, ou em calquer tempo, e –por que nom?– nesta capital da leda e profunda terra do vinho, na Praça Maior, ou pé dos muros do Castelo, ou na ribeira do Ávia rumoroso.

Noutro tempo chegava o ribeiro a alongadas latitudes europeias. Modernamente, a emigraçom abriu-lhe as portas de algumhas terras americanas. O vinho do Ribeiro, o vinho galego, como a língua galega, está ameaçado decote por poderosas competências. Nom pode viver se nom luita teimosamente por sobreviver. O nosso vinho, a nossa fala necessitam, em primeiro termo, ser autênticos, ser eles mesmos, rejeitar energicamente toda adulteraçom, apresentar-se puros no concerto dos vinhos e das línguas. O tempo decorre, a história flui, a vida avança. As cepas renovam-se, as palavras cambeiam. Mas se o ribeiro ha de ser ribeiro e o galego ha de ser galego, o que é o mesmo que dizer, se o ribeiro e o galego querem ser algo, e nom nada, ham de manter as essências que os figerom serem o que som. Só assi se poderám abrir novos mercados, novos espaços vitais para o um e para o outro. Se o vinho nom sai da adega, nom passa de afago doméstico. Se a nossa língua nom se oferece fraternalmente, como na Idade Média, à comunicaçom com outras áreas hispánicas, nom passará de gíria arquidiocesana. Será melhor que algum dia nom exportemos homes, senom produtos. Todo galego deve consumir vinhos galegos, todo galego deve ler literatura galega. No entanto, para que a balança de pagos nos seja favorável, é preciso que, cada dia mais, em competência pacífica, polo esmero do cultivador, o nosso vinho se beba, a nossa literatura se leia além das catro províncias.

A primavera estende o seu manto sobre a ribeira do Ávia. O jubiloso coro dos vinhos que os colheiteiros nos oferecem, canta nas cores dos diversos ernbotelhados. É um canto de esperança. Sobre o verde da terra ribeirana, amanhá se alçará o sol. E será como umha fervente cunca de alegre treixadura que transbordando o barro que a contém, derramará os seus raios de luz sobre esta terra. Regedores e povo de Ribadávia, brindo porque aqueça perpetuamente as vossas almas esse vinho solar.

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