15.000 tesouros nos Ancares

Xabier Moure conta a sua experiência catalogando milhares de bens do património cultural agachados no país.

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Antom Santos | Lugo, 9 de novembro. Xabier Moure Salgado é um dos muitos filhos do magistério galeguista do século passado. Cativado polas aulas de Xaquín Lorenzo no Ourense da sua mocidade, abandonou os estudos de Farmácia para enveredar cara a História e a Arqueologia. Trás dedicar-se à defesa do património na Marinha, o destino laboral levou-no há sete anos às serras orientais, onde dinamiza a associaçom Património dos Ancares. Alicerçada na devoçom polo passado e no voluntariado, tem registado milhares de jóias arqueológicas num incessante esforço de procura e catalogaçom. Com ele falamos do resgate do passado, da compreensom e valorizaçom de quem somos, numha das comarcas mais castigadas polo despovoamento e a nulidade política.

Graças a umha tradiçom centenária que remonta ao Seminário de Estudos Galegos e às suas caminhadas de pesquisa, o nosso país tem sido um viveiro inesgotável de amantes do património que, com formaçom disciplinar ou desde o puro amadorismo, tenhem contrapesado o vírus da ignoráncia do próprio e o do auto-ódio. Este é o ronsel que segue Xabier Moure, dominado pola mesma paixom desde os anos juvenis: “recebim aulas de Xocas e acordou em mim o interesse polo passado, nunca deixei de afundar nos secretos da Galiza. Pode-se dizer que a conheço toda, andei os seus 313 concelhos. E mesmo hoje, ainda que sobretodo dedicado a estudar e promocionar a riqueza dos Ancares, fago incursons por qualquer ponto do país”.

Sem exagero, pode-se dizer que a pretensom de conhecer a Galiza inteira é quase inabarcável: “ainda é hoje que estou a descobrir caminhos, a topar-me com lugares que podem agochar jazigos. Nos últimos tempos dedico-me especialmente a fazer andainas polo noroeste, essas terras que vam do Eume a Trasancos”.

A questom do património revela umha das contradiçons mais agudas da Galiza contemporánea, embarcada no paradigma da modernizaçom a todo preço. Toneladas de cimento e betom tenhem sepultado um volume incalculável de jazigos nas décadas recentes, com o aplauso da mídia e ante umha inibiçom social maioritária. As autovias, a alta velocidade ferroviária o bom imobiliário e mesmo os os incêndios rematárom de vez com jóias que nunca conheceremos, no que o estudioso Manuel Gago tem definido como o processo de destruçom do património mais acelerado da história da Galiza. Porém, o século XXI está a ser também o da organizaçom dum novo voluntariado que, apoiado na comunicaçom em rede e num novo amor pola volta ao monte. “Estám-se a viver cousas com umha dimensom que eu nom conhecia”, conta Moure, “como o de convocar um roteiro através das redes sociais para visitar umha via romana, três dias antes de se celebrar, e de reunir mais de cem pessoas”. Iniciativas como o web historiadegalicia.gal, renovadas cada semana com mais e mais achegas do voluntariado arqueológico ou dos profissionais do grémio, apontoam esta prometedora tendência.

“Toneladas de cimento e betom tenhem sepultado um volume incalculável de jazigos nas décadas recentes, com o aplauso da mídia e ante umha inibiçom social maioritária. As autovias, a alta velocidade ferroviária o ‘boom’ imobiliário e mesmo os os incêndios rematárom de vez com jóias que nunca conheceremos.”

O colectivo ancarês bebe deste interesse crescente, e fai parte da constelaçom que se coordenou na Rede do Património Cultural: umha entidade que resposta à inoperáncia da Junta resgatando e difundindo os milhares de bens que acolhem os montes do país. Moure é mais um desses catalogadores minuciosos e laboriosos que dam prova do potencial desses trabalhos que se abordam com entusiasmo. “Ao início, e num plano individual, a minha inquietude era saber que temos: porque se os concelhos desconhecem o que existe, ou nom lhes interessa o mais mínimo fazê-lo público e pô-lo em valor, por onde começamos”. O primeiro passo foi a rede. “Cheguei aos Ancares, e através do blogue O Noso Patrimonio, fum catalogando, obviamente com ajuda, até chegar aos 15.000 registos: esses som os milhares de bens da comarca, arrancando do Paleolítico”.

Esse foi o primeiro passo. “Eu vinha da Marinha, onde a militáncia polo património estava mais viva, e tinha contribuído para várias revistas; logo comecei na Internet, e depois desta tarefa inicial na rede, dixem-me: aqui nom há nada. Se tenhem catalogados apenas 15 castros… cumpre artelhar algo. E começamos quatro pessoas, há sete anos. Hoje somos mais de vinte, e já com certo reconhecimento social e mediático. Ao termos na equipa historiadoras, documentalistas, labregos, guardas florestais, a abordagem é multidisciplinar: quem vive nas aldeias descobre os bens sobre o terreno, e logo em bibliotecas e arquivos completamos o trabalho”.

Moinhos en Pedrafita do Cebreiro. Imagens cedidas por Xabier Moure (na foto do cabeceiro).

A Galiza arredada

Neste ponto rematam os paralelismos e começam as diferenças, que som muitas. Ánxel Fole falava das serras orientais como “a Galiza arredada”, um conjunto de bisbarras de geografia duríssima que marcárom umha história e um carácter. A consciência de periferizaçom, esquecimento oficial e desaproveitamento dos recursos fôrom, e som aqui, ainda mais intensos que no resto do país. Numha reportagem para El Ideal Gallego em 1968, o jornalista Enrique de Arce, enviado como reporteiro para dar notícia da desconhecida vida em Donis de Cervantes, manifestava com preocupaçom que nesta zona da Galiza “ainda nom se dera o passo de converter o trabalho em dinheiro”, e definia a vizinhança como “especialmente estoica, trabalhadora e solidária”. As estradas asfaltadas que pola vez primeira conectárom Piornedo com Suárbol e Návia inaugurárom-se em 1984 e 1988, respectivamente. Até bem avançado o século, o único tráfico fluído com o exterior era o de certas mercadorias, mais um exemplo do histórico destino exportador da nossa terra: a exploraçom madeireira dos Cabaninhos, explorada polo Marquês de Riestra, nutriu a construçom das vias férreas espanholas e as fábricas de barris de Jerez de la Frontera.

Antes da literatura popularizar as grandes serras do país -nomeadamente o Courel de Novoneyra-, o que chegava aos ouvidos do comum das galegas e galegos eram alusons fragmentárias a cordais remotos, aldeias isoladas e natureza virgem. José María Castroviejo, o escritor carlista que antecipara certa preocupaçom polo meio ambiente em plena ditadura, aproveitara as suas saídas polos Ancares para elaborar a quatro maos com Álvaro Cunqueiro crónicas da última Galiza fidalga, a das batidas de caça em comum de senhoritos e paisanos em bosques inóspitos. Em Viaje por los montes y chimeneas de Galicia aparecem recriadas as terras do urso, o cervo e a charrela.

Na realidade, a noçom da comarca dos Ancares é recente, e deve-lhe muito à consolidaçom do montanhismo a partir da década de 70, com a conseguinte abertura do albergue e o início dum pequeno fluxo de visitas urbanas: “historicamente isto eram os Montes de Cervantes e os Montes de Návia, um maciço de alturas superiores aos 1.500 metros que fazia fronteira com o Berço, os Oscos e os Picos da Europa. Hoje incluem-se na comarca concelhos do Val do Neira, como Baralha, ou entradas à serra como Becerreá e as Nogais”.

Há também certo acaso na popularizaçom desta zona pois, como é sabido, foi escolhida por um ministro franquista como zona predilecta para a caça. Conta Moure que a última pita do monte -emblema da serra que figura nos colantes que decoram muitos carros e locais- foi abatida por Fraga Iribarne numha das suas saídas de lazer.

Navia de Suarna.

Tópicos e ignoráncia

Para Xabier Moure, é chamativa a distáncia que media entre a popularizaçom do topónimo ‘Ancares’ e o conhecimento real desta parte do país. “Estamos dominados polas imagens dos meios de comunicaçom. Quando caem grandes nevaradas, centos de lucenses aparecem no Cebreiro para jogar com os seus cativos ou fazer-se fotos. A mim fai-me graça, porque há dúzias de lugares na bisbarra igualmente bons para desfrutar da neve que nom visita absolutamente ninguém, e sem essa massificaçom, mas o que atrai é o que promocionam os meios”. No seu esforço por manufacturar umha Galiza de postal volcada ao exterior, apta para ser mercantilizada e livre de toda tensom e conflito, a direita espanhola tem fabricado imagens recorrentes que acabam por embazar a visom dos próprios galegos e galegas. “Os Ancares, segundo a promoçom oficial, som Pedrafita do Cebreiro e as palhoças dos Ancares”, diz Moure, “mas se resulta que há palhoças em todos os concelhos da comarca!”.

“Os tópicos podem desmentir-se um por um”, continua o entrevistado. “Comentava-che antes a péssima catalogaçom dos concelhos: aqueles 15 castros registados, que resultárom ser 140!”. Os Ancares deitam luz sobre a cultura galaica e a romanizaçom, cujos paradigmas dominantes vam esboroando. “Primeiro dixo-se-nos aquilo de que esta comarca nom podia ser especialmente castreja, por ser montanhosa; e nós desmentimo-lo com dados. E logo afirmou-se aquilo de a romanizaçom na Galiza ser um processo relativamente tranquilo, harmónico… mas o registo arqueológico diz outra cousa”.

Património dos Ancares tem feito um especial esforço recuperador da via romana XIX, a mais antiga das três que atravessavam Gallaecia, e que conectava Lugo com Astorga. “Fixemo-nos esta pergunta: se resulta que Décimo Júnio Bruto O Galaico atravessa o Límia em 136 a. C., e esta primeira via nom se constrói até o ano 11 d.C., que acontece entrementres ? Pois com toda probabilidade que os romanos dérom com umha forte resistência. E nessas coordenadas temos que enquadrar os campamentos militares de avance, como o da Recacha. Nom som campamentos permanentes, como Bande ou Sobrado: som de campanha, metidos nas serras mais esgrévias do país. Aqui pugérom-se a funcionar, no mínimo, 25 exploraçons mineiras romanas, que temos também registadas, e o esforço militar deveu-se à vontade de extrair recursos”.

“Primeiro dixo-se-nos aquilo de que esta comarca nom podia ser especialmente castreja, por ser montanhosa ; e nós desmentimo-lo com dados. E logo afirmou-se aquilo de a romanizaçom na Galiza ser um processo relativamente tranquilo, harmónico… mas o registo arqueológico diz outra cousa.”

As descobertas, além de numerosas, cobrem um amplo abano da história, dando prova dum território permanemente humanizado: “eu sempre digo que nos Ancares, e digo-o com todo o rigor, temo-lo todo: petróglifos, com a peculiaridade de estarem gravados em xisto e nom em granito, mas também mámoas, castros, alvariças, palhoças, igrejas, mosteiros…” Existe a monumentalidade dos Ancares, ainda que fosse compreensivelmente escurecida por um cenário natural com poucos equivalentes na Galiza. Aí está a serra, mas também espaços únicos como Cruzul, o acinheiral mais ao norte da Península.

Pombal en Cervantes.

O património e a política

Para Moure, da promoçom a fundo da riqueza cultural ancaresa depende parte do futuro da comarca. O seu diagnóstico é rotundo: “falamos dumha bisbarra que, desde 2004, tem perdido o 25 % da sua populaçom; som cifras que apavoram”. Baleiram-se núcleos de populaçom, perdem-se feiras e fecham-se exploraçons. A boa conexom rodoviária com os principais núcleos urbanos do país demonstra que, no que ao desenho de vias comunicaçom diz respeito, o projecto do poder é baleirar o rural mais que recuperar o seu velho dinamismo. Moure quer evitar grandes palavras: “eu sei que isto é um problema estrutural, e que o património nom o vai resolver. Mas acho que quanto menos a sua promoçom pode conseguir que o que temos se mantenha, que nom esmoreça mais. Se fazemos com que as nossas vilas e aldeias poidam acolher visitantes, isto vai ganhar, sem dúvida”.

A tentativa de Património dos Ancares é envolver os poderes locais na promoçom, mas desde umha rigorosa independência: “nós nom queremos que fagam o nosso trabalho, apenas pedimos que facilitem. Por exemplo, que se organizamos um roteiro, que rocem a zona; ou que se descobrimos umha pedra fita, habilitem o espaço para que os visitantes a desfrutem”. Qual é a resposta que estám a receber ? “Varia dependendo do concelho. Mas em muitos casos nom há resposta. Ignoráncia, passividade. Tratamos com políticos que o único que conhecem é o curtopracismo das citas eleitorais”.

Por vezes, acrescenta Moure, a realidade é mesmo pior, pois da indiferença passa-se ao bloqueio. “Eu nesses casos até pido mesmo que o poder nom se meta. Por exemplo, tenhem-se dado casos de descobrirmos um jazigo numha leira, e responsáveis municipais falar com os proprietários para lhe dizer que se metiam numha lea, que todo iam ser obstáculos para eles… nós temos que fazer umha grande pedagogia e fazer entender que todo jazigo e um ganho: para eles mesmos e para o povo”. Xabier Moure conhece concelhos onde a promoçom do património é real e efectiva: “vim interesse em Veiga de Valcarce, vim boas políticas em Vimianço, em Viveiro, em Muras… aqui podem-se fazer cousas semelhantes”.

“Eu sei que isto [o despovoamento] é um problema estrutural, e que o património nom o vai resolver. Mas acho que quanto menos a sua promoçom pode conseguir que o que temos se mantenha, que nom esmoreça mais. Se fazemos com que as nossas vilas e aldeias poidam acolher visitantes, isto vai ganhar, sem dúvida”.

E que com efeito, nom todo som obstáculos: “é curioso, mas os meios de grande tiragem, tanto a televisom como a imprensa provincial, deu-nos muito boa acolhida. É produze-se sempre a mesma reacçom: ao sair certo jazigo nos meios, a gente que vive ao seu carom começa a valorizá-lo. E entom é quando a vizinhança che diz: ‘já vim que descobristes isto, e aquilo”.

Logros e reptos

Depois de sete anos de trabalho intenso, o associativismo de base deu prova da sua capacidade para mudar as cousas: os petróglifos, os castros, os campamentos romanos, o caminho real, certa rota alternativa do caminho de Santiago, conformam a herança histórica dumha zona que nom aparecia nem de longe nos registos dos concelhos. Publicaçons sobre lendas dos Ancares e sobre história local (estám a piques de dar a lume umha história de Cervantes) redondeam o labor. Mas Património dos Ancares nom se detém aqui. Pois do património caminha-se facilmente à memória intangível, e aos feitos históricos que, mais ou menos soterrados, conformam as tensons e os reptos do presente.

Certo sucesso da nossa recuperaçom patrimonial deveu-se, historicamente, ao feito de evitar qualquer choque com o poder. O esplendor dum passado remoto podia valer a muitos amantes da Galiza para vindicar o próprio obviando as misérias presentes, e portanto sem molestar demasiado a quem concedem espaços e prebendas. Mas o passado recente vira também património, e o associativismo tem-se que ver com realidades mais incómodas: “somos conscientes disto”, diz Moure. “Sem ir mais longe, a Cervantes cabe-lhe a triste honra de ser o concelho galego com mais vítimas nos campos de concentraçom nazis. Estamos a lhe preparar umha homenagem a estes galegos esquecidos”. No colectivo nom esquecem que a zona também padeceu o genocídio de 1936: “ainda pouca vizinhança sabe que o alcalde republicano da vila foi assassinado; o recordo dos passeados é outro dos nossos trabalhos para o futuro próximo”. Para elaborar um relato acaído da repressom á micro-história é umha grande ferramenta, do que Xabier Moure é muito consciente: “dei com o caso dum vizinho das Nogais que permaneceu num agocho desde 1936 até 1975, com colaboraçom soterrada de algum guarda civil sensível com o caso; topei a sua lápida com a legenda, em castelám: ‘víctima de sus ideales’. Tentei saber mais do caso contactando com a guarda civil, mas a colaboraçom foi nula”.

A Cervantes cabe-lhe a triste honra de ser o concelho galego com mais vítimas nos campos de concentraçom nazis. A zona também padeceu o genocídio de 1936 e “ainda pouca vizinhança sabe que o alcalde republicano da vila foi assassinado”, diz Moure.

É incómodo escaravelhar neste passado em lugares pequenos ? “Si, pode ter um ponto de incomodidade porque os tabus continuam. Mas nós imos para adiante. Nom aceitamos subvençons para garantir a liberdade de acçom, e nenhum de nós tem dependências laborais de nenhum concelho nem estrutura política para desenvolver os nossos trabalhos. Isso garante a nossa actividade”.

Este é o espírito que os guia hoje, que argalham umha exposiçom em homenagem a Fuco Gómez, o primeiro independentista galego reconhecido, natural da paróquia de Ouselhe e fundador do Comité Revolucionário Arredista Galego na Havana. “Imagina a resposta que recebemos dos políticos ao pedir colaboraçom do concelho: ‘aqui nom o conhece ninguém’, dixérom-nos. Claro que nom o conhecem, se ninguém o promociona!”. Gómez, emigrante em Cuba, retornara à Galiza da república para preparar umha conspiraçom independentista, e retornou à ilha, perseguido polas autoridades espanholas e decepcionado pola dessídia dos galeguistas moderados. Graças a Património dos Ancares terá umha exposiçom monográfica na Casa da Cultura de Becerreá. Exemplares da sua publicaçom havaneira, Patria galega, conservárom-se durante décadas em faiados e armários. Agora verám à luz, como outras dúzias de documentos, graças ao activismo incansável do voluntariado de base.

#patrimonio/património

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