Decisom e iniciativa para enfrentar umha crise “sem precedentes”

Centros sociais galegos

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on google
Google+
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram
Share on email
Email
Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on email

Coletivo Amanhecer | A Coruña, Lugo, 22 de maio de 2020. Desde os últimos anos do século XX, a geografia galega, nomeadamente a urbana, povoou-se de centros sociais autogeridos que espalhárom valores solidários e dissidentes, os mais deles dumha perspectiva independentista, e com a defesa do idioma em lugar central. Sostidos maiormente com trabalho voluntário e numha base social de classe trabalhadora, enfrentam agora o seu mais grande desafio em décadas de vida: a perda de ingressos derivada da quarentena, e a previsível crise económica, que golpeará os seus entornos de apoio. O Colectivo Amanhecer fai um percurso pola nossa geografia, falando com alguns deles, e conhecendo de primeira mao as estratégias de sobrevivência que já se desenham.

A história do movimento popular e o independentismo ferrolao vai ligada a um nome já clássico na Galiza enteira: a Fundaçom Artábria. “Estes sessenta dias de feche obrigado pugérom-nos as cousas difíceis. Somos um projecto de mais de vinte anos, mas sempre carregamos com um défice económico. Resistimos graças ao esforço da base social”, diz Bruno Lopes, um dos membros da directiva. O centro tem a sua sé no bairro ferrolao de Esteiro, logo de passar os primeiros anos (fundou-se em 1998) no da Madalena. Na atualidade conta com mais de cem sócias e financia-se com as quotas que pagam associadas e associados, e dos ingressos do balcom. Também obtém fundos da venda de material, e dos cursos que se desenvolvem numha intensa programaçom anual que inclui concertos, teatro, palestras ou projecçons audiovisuais, sempre com o foco na divulgaçom da cultura do país. “Estes sessenta dias ham-nos deixar um défice de ingressos de entre dous mil e dous mil quinhentos euros”, calcula Bruno, e indica que o gasto de algueiro supera os 400 euros mensais.

“Para nós o importante agora é garantir a saúde das usuárias e usuários”, sulinha Bruno Lopes. A Artábria, lembra, cancelou a sua actividade na semana anterior à declaraçom do Estado de Alerta, e volverá a retorná-la “quando considerarmos que é seguro”. Mália a incerteza sobre a capacidade para recuperar a actividade anterior à crise, Bruno tem claro que a Fundaçom conta com apoios abondo: “assi no-lo indica a reposta que tivemos estes dous meses para afrontar os gastos correntes do local, da factura da água à conexom à rede. Mesmo tivemos altas de sócias e de sócios, gente que vinha polo local e agora deu o passo para botar umha mao.”

“O trabalho dos centros sociais soberanistas pola construçom nacional está aí, e que qualquer um tivesse que botar o fecho ia ser umha derrota para o movimento”, assinala Lopes.

Incerteza na Corunha

A poucos kilómetros de Ferrol, o associativismo corunhês também tem construído os seus referentes físicos com espaços libertados. Mais escorados cara o mundo anarquistas, ou sem definiçom tam estrita, em coordenadas alternativas amplas, movem-se centros como o Ateneo Libertario Xosé Tarrio ou A Comuna.O primeiro fundou-se nos Malhos em 2015, e desde há apenas um ano instalou-se num novo local na Agra de Orçám. As preocupaçons som as mesmas que em Ferrol. Os dous meses de feche curtárom a fonte principal de ingressos: a recadaçom que obtinham por venda de material e achegas em cada umha das actividades programadas (palestras, serviço de biblioteca, obradoiros formativos…) A outra fonte som as doaçons. Nom há quotas estabelecidas para os membros do colectivo. O número de pessoas que habitualmente colaboram anda por volta dos vinte: “O Ateneu continuará no mesmo local”, explica Antonio Vázquez, “e recuperará devagar a sua actividade na medida do possível”. No mesmo bairro, outro dos espaços emblemáticos e que estava a piques de recuperar a sua programaçom quando estalou a crise é o Forum Propolis. Depois dumha ameaça de desafiuçamento, o colectivo agrupado por volta do activista Nicanor Acosta decidiu constituir-se em associaçom e estava em pleno translado do local da rua Barcelona a outro na rua Alcalde Lianho. Nestes dias voltárom ao trabalho, mas ainda levará semanas completar o translado da livraria, a loja de roupa e outro material para actividades no novo espaço.”

Nom longe de alô, em Monte Alto, topa-se o CSA A Comuna: “estamos num processo de repensar como será a luita depois desta pandemia”, confessa Sergio Irigoyen, um dos seus impulsionadores em 2015. Conta com médio cento de associadas e associados, a única fonte de recursos para financiar os gastos dum local alugado. “A quota de sócios é anual, assim que nom nos vemos numha situaçom muito pior da que já estávamos, mas tampouco é umha situaçom económica óptima”, explica. Diz que retomarám as actividades “enquanto for possível”. Aliás de palestras, cursos e local para reunions de colectivos e grupos de consumo, na Comuna disponhem do armário comunal, um espaço com roupa de graça, no que a gente traz e leva prendas. Faremos por continuar na jeira que encetamos quando abrimos o local. Procuraremos adaptar-nos ao que vinher, sempre desde a auto-gestom, o antifascismo, feminismo, ecologismo, anti-racismo…o local terá que se adaptar às novas circunstánciasm, teremos que ver com que aforo, porque nom é muito grande.”

Resistir no sul

O Faísca, em Vigo.

Justo um ano depois de ter aberto Artábria em Ferrol, em 1999, inaugurava-se o CSA A Cova dos Ratos em Vigo, um local aberto ao ideário alternativo, à luita anti-carcerária e a iniciativas antidesarrolhistas, sempre generoso com qualquer movimento social que solicitasse ao seu espaço. Na capital industrial da Galiza, o futuro tampouco semelha fácil, mas o carácter da cidade ajuda a enfrentar a adversidade: “desde que começamos”, diz-nos Xandra, umha das suas activistas “vivemos na precariedade e este é um panorama que já conhecemos”. Incide em que “sempre porque apostamos na autogestom e em formas de vida decrescentistas, com mínimo gasto”. Os pequenos ingressos gerados por trabalhar na biblioteca repartiam-se entre em euros e fios (umha moeda social) entre a militante que as desempenhara e o local, permitindo a sobrevivência de ambas as partes. “Sem ingressos de balcom, bar e comedor, o panorama é complicado”, reconhece Xandra, “aliás porque nom nos preocupamos muito com as quotas das sócias”. Qual será a estratégia? A activista ainda nom o sabe, e informa de que numha vindoura assembleia se tracejará o plano: “ora, do meu ponto de vista, a chave é a desobediência. De facto somamo-nos à greve de alugueres de março, e estamos para ver como afrontamos umha dívida com facenda.”

Em afrontar as semanas que venhem também pensam no CS A Revolta do Berbês, na zona velha de Vigo, umha outra pequena instituiçom do movimento independentista. É um dos centros mais veteranos do país, em funcionamento desde 2003, e explicam-nos que o pagamento do aluguer fai-se basicamente com as quotas dos sócios -uns 40- e os ingressos do balcom. Na Revolta, a actividade habitual -palestras, reunions, projecçons, concertos, cursos- está parada desde o 13 de março. “A continuidade está no ar”, assinala Diego, um dos membros do centro social, “a vonta de das sócias é continuar com o projecto e, de ser possível, com o local, mas as dificuldades económicas agora viram muito mais complexas. Levamos dez semanas com o local fechado e ainda nom temos decidido quando voltar à actividade.”

Diego considera que a crise sanitária “repercutirá negativamente” no labor do centro, e advirte que todo o que se fixer doravante verá-se condicionado. “As mudanças sociais tenhem sempre efeito na nossa actividade, mas tendo claro que o nosso papel nasce da necessidade de espaços físicos e estaveis para os movimentos sociais, especialmente para o independentismo galego, e como essa necessidade continuará, nós devemos continuar”, reflecte.

A situaçom é similar no Local Social Faísca, em Vigo. O aluguer do baixo, duns 200 metros quadrado no bairro do Calvário, onde começárom a sua actividade vai para catorze anos, está por riba dos 500 euros mensais. “E a isso cumpre engadir os pagamentos fixos mensais da comunidade, luz, água e lixo, assim como o pagamento a facenda”, explica Rubém Otero, “e somos um centro autogerido sem ajudas, nem públicas nem de empresas privadas.” O local leva mais de dous meses fechado e sem outros ingressos que as quotas de sócias e sócios, arredor de médio cento. Aliás das quotas, o Faísca obtinha antes da crise ingressos de cursos (escalada, gaita, teatro, pandeireta, entre outros), do bar, e de eventos como o jantar do primeiro de maio (suspendido neste ano) e a sua participaçom como associaçom nalgumha festa local (em Bembrive, polo Sam Brais, ou a Reconquista no casco velho), montando um posto de comida. “A intençom é permanecer no local, negociar a dívida com a proprietária e voltar ao trabalho progressivamente, assim que a situaçom o permitir.”

“As mudanças sociais tenhem sempre efeito na nossa actividade, mas tendo claro que o nosso papel nasce da necessidade de espaços físicos e estaveis para os movimentos sociais, especialmente para o independentismo galego, e como essa necessidade continuará, nós devemos continuar.”

“A dia de hoje temos o temor e certas dúvidas de que se poida voltar ao ritmo anterior, quanto menos a curto prazo”, confessa Rubém. Diz que será preciso mudar muitas das pautas no uso para adaptar-se às condiçons exigidas, e advirte que “isto implicará ainda mais trabalho, se isso for possível, polo que começaremos um umha campanha para somar novas pessoas associadas e continuar com a viabilidade do projecto.”

Polo que vemos em quase todos os casos, a cifra do alugueiro é muito determinante do nível de risco que vive um centro social. É por isso que em Ponte Vedra, dentro da preocupaçom geral, tampouco há pánico. Ivám Losada, do Quilombo, diz-nos: “temos um espaço pequeno, nom poderíamos viver do balcom, logo tivemos que basear desde o início a nossa dinámica no pagamento de quotas. E si, por volta de 300 euros de ingressos fixos no mês temo-los, polo que aquí seguimos. “Claro, apesar disto nom podemos confiar-nos”, continua Ivám. “O futuro é totalmente incerto, e se algo temos claro, é que isto se vai superar com maior implicaçom das associadas. Por isso recentemente enviamos um correio informando do panorama que enfrentamos, e chamando a maior participaçom de todos.”

Compostela: “situaçom dífícil, mas nom crítica”

Na capital do país, a Gentalha do Pichel nom precisa apresentaçom: colectivo muito consolidado e referencial, a sua oferta formativa é quiçá das mais completas da Galiza, desde abertura do seu centro social no ano 2004. Aarom Lopes, responsável do balcom e do local, conta-nos que nom cumpre, por enquanto, exagerar a gravidade: “eu diria que estamos em plena incerteza. Si, a situaçom é dura, mas nom crítica.”

Parte dos ingressos do Pichel venhem dos cursos, e alguns deles mantivérom-se online nesta etapa de feche forçado. Com o bar sem funcionamento, resulta evidente que os meios diminuem, e neste capítulo “as quotas das sócias jogam um papel importante.” Seja como for, diz Aarom, “nom queremos precipitar-nos. O Conselho Geral está a elaborar um plano de reabertura, e em particular a Comissom de Cultura Científica dará-nos as pautas mais seguras. Queremos estar alerta ante qualquer possível rebrote, e a saúde é o primeiro”. Como em todas as cabeças, na de Lopes está também o novo cenário post-pandemia, e ele pensa “que muito do nosso funcionamento terá que se repensado, adaptado a umha situaçom inédita.”

Que se passa na Galiza interior?

Longe do dinamismo social e económico da faixa atlántica, que se vê reflectido nos índices associativos, a Galiza interior livra as suas próprias batalhas, e também o fam os seus centros sociais. Falamos com Ximena Gonçales, presidenta da Galheira -e coeditora de adiante.gal-, que introduz, quanto menos para Ourense, umha nota de tranquilidade nesta incerteza geral: “por agora, certamente, nom estamos demasiado preocupadas. A caseira perdoou-nos o alguer até maio, e pola estrutura do nosso local, tampouco o balcom permite grandes ingressos”, diz-nos esta militante. “Nós sostemos quase todo nas quotas das pessoas associadas, e por enquanto dam-nos as contas. Até uns ingressos extra que conseguimos fôrom recentemente como doaçom às escolas Semente.” Obviamente, os riscos existem, e a desarticulaçom social que avança ameaça também certas fontes de ingressos: “claro, neste ano ficamos sem os Maios, dos que por vezes ingressávamos vários centos de euros; possivelmente também fiquemos sem Sam Joám, e quem sabe que se passará com os Magustos?” Porque além do local, recorda Ximena, “o colectivo precisa dinheiro para lançar as suas campanhas”.

Mádia Leva!, em Lugo.

Bem distinta é a situaçom no curso alto do Minho: em Lugo, o CS Mádia Leva! pensa como manter a sua custosa infraestrutura na Rua Serra dos Ancares. Actuante na cidade desde 2007, o Mádia Leva! é já um referente muito consolidado do movimento galego, e por extensom de todo o associativismo na cidade das muralhas. O seu local de dous andares, com balcom, sala de aulas, cozinha, armazém, permite celebraçom de múltiplas actividades, e acolhe cursos muito concurridos. “O problema”, diz Lola Torrealba, umha da suas dinamizadoras, “é que nós nom ingressamos quase por eles, e tampouco os ingressos do balcom som abondo.” Cada agosto, o Mádia Leva! despregava o seu bar-carpa no Festival de Pardinhas, em Guitiriz, e em três dias de trabalho voluntário e muito intenso, conseguia recursos que permitiam afrontar boa parte do aluguer, por volta dos 600 euros mensais. “Agora os donos nom nos quigérom perdoar nem um euro, e ademais de perdermos Pardinhas, que será suspendido, perdemos celebraçons com o Lume Novo, que para nós era importante.” Lola diz que “é urgente tracejar um plano B, e teremos assembleia aginha”. Som várias as possibilidades, mas Lola enuncia algumha: “ademais de conseguir maior compromisso de associados e base de apoio, acho que teríamos que pensar numha iniciativa nacional, de todos os centros, para enfrentarmos o que vem aí.”

“É urgente tracejar um plano B. Ademais de conseguir maior compromisso de associados e base de apoio, acho que teríamos que pensar numha iniciativa nacional, de todos os centros, para enfrentarmos o que vem aí.”

Da Marinha à Guarda

Na Galiza das vilas, os centros sociais tenhem aberto o seu espaço associativo, enfrentando muitas vezes os entraves da falta de dinamismo, a emigraçom e os fracos apoios. Na actualidade, no norte e no sul do país resistem duas iniciativas meritórias.

Bernardo Nunes, do CS Xebra, diz-nos que a situaçom vai requerir de “soluçons solventes”. Neste local burelao, o pagamento do aluguer é gravoso, e desde 2013, que nascêrom, “a taverna é o recurso fundamental. Funcionava especialmente bem nas festas da vila, que este ano estám suspendidas já”. Bernardo esclarece que estám a deliberar ainda: “abrir nas condiçons do verao, com a vila lotada de turistas, pode ser tentador, mas penso que seria totalmente inconsciente”, diz-nos. “Penso que teremos que recorrer sobretodo ao compromisso militante e recorrer ao pagamento a escote. Saberemo-lo numha reuniom que estamos pendentes de celebrar.”

Muito longe de ali, na Guarda, a tranquilidade é maior. “Nós com arredor de 300 euros de aluguer ‘safamos’ bem cada mês”, diz Martim Ubeira, um dos membros do CS O Fuscalho, “e como nos baseamos nas quotas de associadas, por agora nom há sobressaltos.” Ubeira nom descarta umha volta mais ou menos rápida ao funcionamento aberto, se bem que matizado: “o concelho está informado de que queremos abrir, e ao sermos umha associaçom cultural, nom há pejas legais a isto.” Outra cousa será como recuperar a dinámica de ingressos de sempre: “claro, para nós as festas, os concertos, toda proposta lúdica alternativa, davam-nos muito jogo, também económico. A ver como replantejamos isto.” Martim é consciente de que o problema dos centros sociais é nacional, e que nesse sentido, na Guarda, a situaçom é relativamente boa: “a nós, por exemplo, o dono perdoou-nos um mês de aluguer, sei que em outros lugares nom houvo esta compreensom. Quiçá seja interessante nesse sentido informar-se juridicamente das possibilidades que existem de impago de alugueiros, como as que apoiárom a greve de março.”

*O Coletivo Amanhecer que assina este artigo dá nome à colaboraçom jornalística de adiante.gal e Galiza Livre.com, em processo aberto a outros meios comunitários e jornalistas galegas.

Actualidades