Galiza é um mundo

Umha conversa do João Aveledo, biólogo e professor, sobre a riqueza natural galega, peça "mais desconhecida de todo o nosso património colectivo".

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Antom Santos | Lugo, 20 de agosto. É provável que umha imensa maioria de galegos e galegas desconheça que na nossa terra se achava a maior lagoa de todo o território da Península, Antela; que os labregos de inícios do século XX ainda se encontravam com tigres, isto é, os últimos exemplares do lince-europeu logo exterminado pola caça; que A Estaca de Vares reunia já nos 60 muitos ornitólogos foráneos, atrazidos por um dos miradoiros de aves marinhas mais importantes da Europa; ou que a nossa terra acolhe um feixe de espécies animais endémicas, muitas classificadas por Víctor López Seoane, o naturalista ferrolano que mantinha correspondência com Charles Darwin. Som apenas pinceladas dumha riqueza natural massivamente ignorada que um voluntariado silencioso teima em resgatar. Falamos com João Aveledo, biólogo e professor, que adverte também do ponto de inflexom que atravessamos: “a aceitável conservaçom da nossa natureza viu-se seriamente ameaçada quando a industrializaçom chegou à Galiza”.

João Aveledo é um dos filhos da paixom naturalista que germolou na Galiza dos anos 70, quando as primeiras pegadas do industrialismo começárom a desbaratar aquele meio ambiente fundamente humanizado, em que o ser humano convivira secularmente com todo o vivente, entre a tensom e o respeito. “Fum mais um daqueles milhares de rapazes fascinados polos animais graças aos documentários de Rodríguez de la Fuente. Desde entom, nunca deixei de estudar a natureza e procurei vivê-la de perto sempre que tivem a oportunidade”. Com modéstia, Aveledo diz que nom se pode considerar um naturalista: “como muito som bichólogo afeiçoado”, afirma. Mas for nas suas caminhadas, nos seus trabalhos como auditor ambiental, nas suas aulas em formaçom profissional ou nas suas colaboraçons jornalísticas, transparece-se respeito e paixom. A Galiza natural, secçom que lhe brinda o mensal Novas da Galiza desde há mais de dez anos, regista o minucioso seguimento dos tesouros botánicos e faunísticos que temos a poucos kilómetros das nossas moradas, habitualmente sem darmos por isso.

O conhecimento biológico da nossa terra, esclarece-nos, nom se dissocia no seu caso da identificaçom com o país, no seu sentido histórico e antropológico. “Um dia comecei a dar-me de conta de que naquela série El Hombre y la Tierra Galiza praticamente nom aparecia, apesar de habitarem-na algumhas das espécies selvagens mais importantes; sem irmos mais longe, todo o noroeste peninsular era e ainda é o maior refúgio do lobo ibérico na Europa ocidental”. Aveledo reparou em que a ignoráncia pairava sobre a riqueza do nosso país, e que o fenómeno salferia também o mundo natural: “estudei biologia em Compostela e fiquei assustado ao escuitar de catedráticos foráneos burrices tais como que na Galiza nom existiam complexos dunares. Logo encaixei as peças e reparei que existia umha arreigada ignorância espanhola de todo o galego, por vezes beirando o desprezo; atingia também a nossa realidade natural, e incidia aliás no nosso povo; reproduzindo os tópicos fabricados fora, os galegos arredávamo-nos de todo o próprio”.

Mas tampouco o galeguismo, no seu sentido mais genérico, se livra da ignoráncia. Nessa porçom do país sensível com a língua, com o património histórico ou com a geografia existe, porém, um certo sentido de estranheza face o mundo natural, como se urbanizaçom acelerada esfarelasse de súbito a velha familiaridade com o entorno. Para João Aveledo, trata-se dumha velha peja que afinca nas origens do galeguismo: “bem é certo que existiu umha preocupaçom pola paisagem, aquela que representa Otero Pedraio ou pola geologia em Parga Pondal; mas entre nós o montanhismo, por exemplo, foi mais bem fraco; e além disso, o galeguismo enquadrou-se numha tradiçom do sul da Europa, comum também a Portugal ou à Itália, que só valorizava como cultura as humanidades, desconsiderando o papel das ciências”.

Além do tópico

É doado comunicar em poucas palavras o espaço que desde tempo imemorial habitamos galegas e galegos? Trata-se dumha biorregiom bem determinada por estudos multidisciplinares que para o visitante foráneo dá nas vistas. Biorregiom profundamente marcada por umha conformaçom extraordinária, as rias, e pola riqueza marisqueira sem equivalentes que possibilita um fenómeno de afloramento marinho.

“Porém”, esclarece João Aveledo, “para umha compreensom cabal do que nos rodeia, cumpriria desfazer-nos de certos tópico”. Um dos mais arreigados é o dumha homogénea Galiza atlántica, homologável a qualquer um outro espaço do noroeste europeu. “Na realidade somos a encruzilhada, ou o ponto de encontro, entre duas grandes áreas climáticas, a eurosiberiana e a mediterránea. Por isso somos o limite sul de muitas espécies nortenhas ou, se se quer, um espaço do ‘norte’ em que se reproduz fauna e flora do ‘sul’. Também no mundo natural se cumpre à perfeiçom aquele velho dito dos nossos clássicos: Galiza é um mundo.”

O Barbança, nunha fotografia de Aveledo: flora e povoamento. Na imagen superior, Os Ancares.

“O nosso é um território profundamente humanizado, com traços comuns à maioria do continente. De feito, até os lugares emblemáticos que pensamos alheios à nossa sociedade, estám modificados pola intervençom humana, como podem ser as fragas do Eume”

E com efeito, quem se adentrar no recanto surleste do nosso país topará umha paisagem tipicamente mediterránea; e também nos vales dos nossos rios -mesmo “até o Mandeu”, concretiza João- chegam as influências do clima da Europa meridional. Poderíamos também dar com áreas continentalizadas no interior, e obviamente com comarcas prototipicamente atlánticas assi que nos achegamos para as costas do cantábrico.

Um outro lugar comum -especialmente cultivado polo observador urbano- diz que a Galiza acolhe terras virgens com amplos espaços selvagens. “Esta é umha visom carente de qualquer apoiatura real”, continua Aveledo. “O nosso é um território profundamente humanizado, com traços comuns à maioria do continente. De feito, até os lugares emblemáticos que pensamos alheios à nossa sociedade, estám modificados pola intervençom humana, como podem ser as fragas do Eume”. Nom há restos portanto do bosque primordial que ocupou a Europa inteira, e que hoje se reduz a pequenos redutos entre a Polónia e a Bielorússia. Como nos lembra Pérez Pintos na obra Historia contemporánea da destrucción da natureza en Galiza, a opiniom comum confunde ‘fraga’, ou mesmo ‘carvalheira’, com ‘bosque’; mas para existir este cumprem uns parámetros de biodiversidade há muito tempo esmorecidos, tanto no nosso país, como na maior parte do continente. Quem quiger conhecer os últimos cerelhos do que em propriedade se chama bosque terá que viajar a recantos esquecidos da nossa terra, como Cabanas Velhas, nos Ancares. Lá, ao pé de Três Bispos, topa-se umha pequena mostra do que foi a natureza primária do nosso território, onde árvores vivas e mortas, fungos e liques, fauna e flora, se topam num equilíbrio muito específico, incompatível com a proximidade humana.

Na realidade, a contorna que nos rodea é filha dum “velho complexo agrário”, segundo o definira o geógrafo francês Abel Bouhier na sua tese de doutoramento a finais da década de 70. Umha civilizaçom milenária apoiada na complementariedade entre monte e terras agrícolas que, quanto menos desde a Idade Moderna, desenhou umha paisagem bastante semelhante à que hoje ainda reconhecemos como própria: a floresta atlántica, a grandes traços pobre em diversidade vegetal, é riquíssima em humus, e portanto muito cobiçada polas sociedades agrárias. A partir dela, e reduzindo-a, o povo galego teceu um enorme mosaico de cultivos nutridos pola fertilizaçom do monte baixo, e salferida aqui e alô por áreas selvagens muito limitadas.

Os passos cara a desfeita

Perguntamos a João Aveledo quais as razons da relativa conservaçom da natureza na Galiza da altura, apesar dumha importante pressom demográfica e da clássica luita que protagonizárom todos os povos neolíticos contra as zonas arvoradas. “O ser humano construiu aqui um mosaico de espaços complementares que, ainda dominado pola lógica produtiva, permitiu o florescimento dumha grande diversidade e mesmo a sobrevivência de fauna selvagem nos confins dos territórios habitados”. Ainda, é umha evidência que a Galiza tradicional -isto é, precapitalista- livrou umha batalha sem quartel contra várias espécies que padecêrom a depredaçom humana, quanto menos desde tempos medievais. A documentaçom dos reis galegos recolhe a autorizaçom de ‘montarias’, jornadas de caça que procuravam espaventar as alimárias cara as áreas boscosas; e também a Idade Moderna potenciou um novo modelo de batidas protagonizadas polas fidalguias locais, auxiliadas pola vizinhança, a médio caminho entre a defesa da produçom agrária e o recreio das elites. Os rescoldos desta prática aparecem recolhidos no conhecido livro Viaje por los montes y las chimeneas de Galicia, escrito a duas maos por José María Castroviejo e Álvaro Cunqueiro, crónica dum país já desaparecido onde se dava a combinaçom -paradoxal aos olhos de hoje- entre a veneraçom pola natureza e a perseguiçom a ferro e fogo do lobo, o veado, o urso, o galo-montês ou o rebezo. Na década de 70 ainda subsistia nalgumha comarca galega a figura do alimanheiro, vizinho solerte na caça que limpava os montes das espécies mais daninhas para o agro, com grande agradecimento da comunidade.

Seja como for, e à margem da desfeita ecológica daquela caça massiva, o processo desenvolveu-se numha luita do homem contra a fauna sem motivaçons crematísticas, e relacionada mais bem com a tentativa de assegurar as condiçons de vida num contexto precário, condicionado pola incerteza e a ameaça permanente da escassez.

Barragem das ‘Conchas’ no Limia e serra do Gerês.

“O ser humano construiu aqui um mosaico de espaços complementares que, ainda dominado pola lógica produtiva, permitiu o florescimento dumha grande diversidade e mesmo a sobrevivência de fauna selvagem nos confins dos territórios habitados”.

O Arnoia.

A desestruturaçom desde as origens

Na realidade, os grandes problemas estruturais da natureza galega, os que ainda condicionam o nosso dia a dia, começam umhas décadas depois. Fam-no nas coordenadas do industrialismo franquista, um projecto de autarquia e ensimismamento do Estado espanhol que se ergue sobre as ruínas da sociedade civil desartelhada pola repressom. A Galiza, denominada “despensa y criadero” polos golpistas em plena guerra, fornecendo de alimentos e de carne de canhom o fascismo, desempenharia logo, segundo os teóricos do regime, um perfeito papel como viveiro florestal para a produçom celulósica. A repovoaçom massiva com espécies alóctones, feita a costa do comunal, mingua o espaço do gado miúdo e ainda agudiza o fenómeno migratório; é entom quando rompe pola vez primeira na nossa história essa velha ensamblagem entre agro e monte. O mosaico produtivo desaparece num processo de desruralizaçom seródio e tam acelerado “do que se conhecem poucos equivalentes na Europa”, diz-nos João Aveledo.

Em apenas 50 anos, a Galiza perdeu o 85 % da populaçom adicada ao sector primário; desde a entrada no Mercado Comum Europeu e até finais do século passado, som 200.000 pessoas as que deixam o sector agrário. Lá onde se ensaiou umha modernizaçom agrícola baseada nas concentraçons parcelárias, a introduçom massiva de tecnologia, pesticidas e fertilizantes, a simplificaçom da biodiversidade alcançou índices dramáticos. “O desecado da lago de Antela sempre se cita como modelo emblemático do produtivismo franquista. Baixo a consigna decimonónica da ‘insalubridade das áreas lacustres’ (mais condicionada polas deficiência sanitárias da época que pola nocividade das lagoas em si) eliminou-se Antela, e com ela um paraíso faunístico e vegetal”. Trataria-se da versom galega do que a ambientalista norteamericana, Rachel Carson, relatou no seu livro precursor A primavera silenciosa, a propósito do acelerado baleirado da avifauna por causa da homogeneizaçom da paisagem e a praga pesticida. Com efeito, o recuar de aves insectívoras (como o peto, o ferreirinho ou a papuxa, entre muitas outras) arranca destas datas. A perda de paxaros, contra o que se puider pensar, nom é apenas umha preocupaçom de ornitólogos, senom um dos melhores indicativos do desbaratamento no que se topa um determinado sistema ecológico.

E como é sabido, com a potenciaçom da monocultura florestal e o recuar dos usos agrários chegaram as grandes vagas de lumes, e umha série de efeitos em cadeia que culminam na actual desertizaçom do interior do país, reconfigurado como umha hipertrofiada conurbaçom atlántica de costas ao leste. “Ao ser a nossa industrializaçom mais seródia, semelha que a Galiza sofreu o deterioramento ambiental menos intensamente”, diz João Aveledo. Mas também aponta que esta reflexom deve de ser matizada. Se considerarmos o seu nível de renda e de industrializaçom -por utilizarmos os termos com que o pensamento capitalista mede o chamado ‘bem-estar’-, a Galiza atura uns índices de poluiçom ambiental muito por cima de todo, em excesso elevados para o seu sistema produtivo, basicamente terciarizado. A responsabilidade recai em complexos industriais como Meirama, As Pontes ou Alúmina, emblemas sinistros do efeito estufa e das chuvas ácidas, quando já estamos às portas do colapso ambiental. Num processo em certa medida equiparável ao desatado por outras infraestruturas energéticas (como as barragens do franquismo e os parques eólicos da actualidade), os custos do cacarejado progresso industrial recaírom enteiramente em populaçons locais, que se vírom privadas dos seus supostos benefícios, umha e outra vez sacrificadas à crescente demanda energética das zonas industrializadas do Estado.

Tampouco ao observador mais distante lhe passa inadvertida a triste associaçom entre a Galiza e as reiteradas catástrofes ambientais derivadas do naufrágio de petroleiros: Urquiola, Andros Patria, Mar Egeu, Prestige… a lista é longa, e no imaginário popular explica-se polos efeitos das trevoadas costeiras de outono e inverno no contorno dumha costa esgrévia. Estes factores contam, como também conta a negligência política na hora de gerir situaçons de crise. “Mas cumpre nom esquecer -continua Aveledo- que é a instalaçom da refineria da Corunha, outro exemplo de indústria de enclave, a que está por trás da repetiçom do drama”.

A pergunta resulta obrigada: foi alterado este modelo industrial dependente desde o fim do franquismo? “Podemos dizer que nom no essencial. Há modificaçons, é certo, e certa legislaçom conservacionista derivada dumha nova sensibilidade social polo meio. Mas é umha legislaçom que se desenvolve sempre e quando nom toque a economia”.

Refineria da Corunha.

Galiza no marasmo global

As perspectivas ambientais, em termos amplos, nom som esperançosas, e porém João Aveledo é tremendamente cauto. “Nom, nom me atrevo a falar de colapso, ainda que conheço a literatura que se escreve sobre o tema. De partida o que sabemos é que o mundo está a viver um aquecimento , e que a maioria da produçom científica assinala que é produto da actividade humana. Eu apenas constato o fenómeno”. Na mesma linha se pronunciam científicos como Vidal Romaní o geólogo que tem manifestado que o aquecimento em andamento fai parte da sucessom de diferentes ciclos temáticos que tenhem marcado a história do planeta, e que a humanidade dispom de recursos abondos para superar o trance.

Idêntica prudência leva Aveledo a evitar qualquer juízo severo sobre a responsabilidade social, muito longe dessas teses decrescentistas que chamam a umha ruptura imediata e radical com o modo de vida consumista. Perguntamos-lhe ao João polo nível de responsabilidade que temos as pessoas, mergulhadas na espiral consumista no agravamento da desfeita. “No que diz respeito a cidadania, eu nom gosto de falar de responsáveis, e muito menos de culpáveis. É certo, vivemos com um nível de comodidades ao que nom estamos dispostos a renunciar: auga quente, carros particulares, viagens de aviom… mas eu próprio duvido que fosse capaz de prescindir disto todo. Entom nom me aventuro nesse campo, nessa crítica, porque é um problema enormemente complexo. O que si podo dizer é que confio em que vai haver avanços tecnológicos, avanços rápidos, que podem amortecer a crise ambiental nas vindouras décadas. E tampouco nom se me escapa que junto os retrocessos, a consciência ecológica medrou nas últimas décadas”.

“Eu nom gosto de falar de responsáveis, e muito menos de culpáveis. É certo, vivemos com um nível de comodidades ao que nom estamos dispostos a renunciar: auga quente, carros particulares, viagens de aviom… mas eu próprio duvido que fosse capaz de prescindir disto todo”.

A cautela tampouco nom leva João Aveledo a escurecer os riscos da etapa em que nos adentramos: a possível mediterranizaçom do clima, hipotéticas restriçons hídricas, o empobrecimento florestal… mas sobretodo, um novíssimo fenómeno: “para mim há umha ameaça que paira sobre a Galiza, e que se tem pouco em conta: as bioinvasons”. Os especialistas falam de neopangeia para descrever um mundo em que, como no continente único de antano, nom há barreiras entre espécies, e todas circulam, cooperam e brigam num continuum. Três fenómenos estám a interrelacionar-se para conformarem um cenário incerto na Galiza: a progressiva desapariçom de espécies boreais, devido ao aumento de temperaturas; a chegada de espécies surenhas ao nosso hábitat; e a colonizaçom da nossa terra por causa da fauna e flora exótica que inça com o comércio globalizado.

Aveledo acha que o fenómeno é de todo imparável. A sua minimizaçom, em qualquer caso, passa pola determinaçom humana: “a vontade política e os avanços tecnológicos, eis as chaves que podem suavizar o problema”. Certamente que este é um repto que supera com muito as capacidades humanas, diz João, mas em qualquer caso, umha intervençom decidida “poderia dar tempo às espécies autóctones a se afazer às invasoras, para finalmente conviver com elas”.

Vigo.

Natureza e distopia

A imaginaçom urbana, historicamente alimentada pola cultura cinematográfica, tem situado os futuros distópicos do século XXI em cenários urbanos, grandes metrópoles superlotadas e poluídas sem abertura nenhuma à natureza. Mas esta visom nasce, mais umha vez, ignorando a vida selvagem, que, ainda empobrecida e sacodida pola pressom humana, continua o seu curso num processo contraditório: simplificando-se, hibridando-se, e também proliferando de maneira incontrolada. De costas à grande conurbaçom galega (que, simplificando um bocado, é como dizer de costas à AP-9) medra um deserto verde, ainda favorecido polo encolhimento populacional; alimenta-o a nascente indústria de biomassa favorecida polo governo do PP, que propom duplicar a superfície de eucalipto nos próximos anos, mas também a massa de caducifólias que se extendem naturalmente sobre antigas terras agrárias. Mesmo em entulhos da actividade industrial, como acontece na escombreira que levantou ENDESA com o refugalho da velha mina d’as Pontes, umha pesquisa universitária registou um grande número de espécies de vertebrados adaptados ao meio, segundo recolheu na sua obra Pérez Pintos. Vivem lá em relativa tranquilidade, à margem das pessoas, numha das comarcas rurais mais despovoadas do país.

É a mesma distáncia humana que favorece a expansom do javarim, do corço, do urso, “e mesmo do lobo”, como confirma João Aveledo. Nom tem a ver com o respeito nem com a preocupaçom com a natureza, senom mais bem com a massiva despreocupaçom das pessoas respeito o que acontece fora das cidades ou dos ecrás do telemóvel. A terra já nom constitui um espaço produtivo e, para umha cidadania maiormente desidentificada com o seu contorno imediato, também deixou de ser espaço de relaçom e de lazer. “Agora existe umha nova geraçom de jovens aficionados à ornitologia que, mais que pisar o monte, seguem a evoluçom dos paxaros através de webcams que analisam o comportamento das aves em tempo real”, diz-nos Aveledo com certa tristeza. A crise ecológica parece revelar, além de incalculáveis danos ambientais, as doenças dumha sociedade cada vez mais encapsulada.

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