Hierarquias em pé (vivenda e género)

Umha crise feita de muitas crises (e 8)

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on google
Google+
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram
Share on email
Email
Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on email

Novas da Galiza, Coletivo Amanhecer | xuño 2020.  Se bem a habitaçom é um direito em crise permanente, pois a sua mercantilizaçom provoca que nom todas as pessoas podam aceder a ela, as perspetivas de empobrecimento geral como consequência da gestom do surto da covid19 fam prever que os problemas habitacionais dispararám. Por outro lado, também está prevista umha queda no mercado imobiliário e adverte-se de que os preços dos alugueres poderám continuar a subir.

Estefanía Calo é socióloga e forma parte do Grupo de Estudos Territoriais da Universidade da Corunha. Na hora de responder as questons formuladas arredor da crise da vivenda quer esclarecer que apenas pode partilhar algumhas reflexons perante a atual situaçom de incerteza. Colabora também com os Grupos de Apoio Mútuo (GAM) da Corunha, que também colaborárom na formulaçom destas reflexons.

Assim, Calo indica que a crise habitacional já era percebida antes do surto da covid19, especialmente em relaçom às rendas. “A vivenda sempre está em crise porque sempre há populaçom com problemas de acesso. Porem, só se fala em crise em situaçons em que a problemática afeta a mais grupos sociais, como aconteceu com a crise de 2008”, aponta. Assim, acrescenta que a pandemia está a visibilizar a situaçom precária de muita gente e está a piorar as condiçons de vida, polo que as pessoas que se encontrrem em situaçons de vulnerabilidade poderám passar a umha de exclusom social e pessoas com certa estabilidade poderám passar a ser vulneráveis.

Para Calo, a atual situaçom tem umha leitura de género. “Se falarmos em emprego precário e instável som as mulheres que ocupam esses postos, e muitas som migrantes, sobre todo aquelas que se dedicam aos cuidados e à limpeza”, reflete. Para ilustrar esta afirmaçom expom umha experiência do grupo de vivenda dos GAM da Corunha: “Quando se mobilizaram para a greve de alugueres em março detetárom que a maioria das pessoas que cobriram o formulário de adesom eram mulheres em fogares monoparentais, que trabalhavam em negro no setor da limpeza e dos cuidados”.

Onde acha Calo que terá umha especial incidência esta crise será no mercado de vivenda em aluguer. “A situaçom de precariedade laboral aumentou, polo que muita gente, ainda que queira, nom pode mercar e tem de alugar. Aqui também pode fazer-se leitura de género, idade e procedência, pois esta situaçom de vulnerabilidade afeta mais a gente nova, as mulheres e o migrantado”.

“Há casos de proprietários com várias vivendas, algumhas no mercado de vivenda habitual e outras no mercado de vivenda turística, que para compensar a perda de ingressos das turísticas aumentam o preço das habituais” (E. Calo)

Umha das consequência previsível da atual crise é umha reduçom das atividades arredor do turismo, o que pode propiciar que algumhas das vivendas de uso turístico voltem ao mercado de vivenda habitual. “Neste sentido pode ser que ao aumentar a oferta se reduzam os preços dos alugures”, reflete Calo, mas expom que também está a dar-se um aumento de preços: “Parece que há casos de proprietários com várias vivendas, algumhas no mercado de vivenda habitual e outras no mercado de vivenda turística, que para compensar a perda de ingressos das turísticas aumentam o preço das habituais”.

Da opiniom de que os preços da vivenda em aluguer nom vam baixar é também Roberto Castro-Tomé, economista e consultor urbanístico. “Os preços do aluguer vam continuar tensados”, afirma. Expom para isto dous argumentos: por um lado que o nosso país nom conta com um parque de aluguer significativo e por outro o apego à propriedade que deteta na Galiza. “Há proprietários que preferem ter as vivendas fechadas antes do que as meter no mercado”, afirma. Como também apontava Calo, sublinha que a crise vai provocar que se deixe de comprar vivenda, o que traz polo menos umha estabilidade para os preços do aluguer. Castro-Tomé atreve-se a indicar que os alugueres hám subir nas cidades e na costa.

Castro-Tomé, numha análise a nível global, acha que o impacto no mercado imobiliário trará um descenso de operaçons e preços de venda, devido especialmente à falta de emprego e à perda de populaçom. “Devemos pontualizar que estamos a falar em termos gerais, já que o mercado imobiliário está marcado por realidades socioeconómicas que o tornam mui local”, acrescenta. Ademais, alerta da opacidade que existe no mercado imobiliário, “que fai mui complicado realizar umha análise pormenorizada e que seja ajustada aos dados, um dos grandes problemas do setor”.

Castro-Tomé deteta também a existência de umha procura de casas de campo, mas acha que isto se deve a umha “visom idílica do rural”, pois acha que para fazer do agro umha saída laboral “precisamos de umha aposta da administraçom que dote de serviços a este território”.

O único elemento positivo que encontra Castro-Tomé para o mercado imobiliário galego, “por desgraça, som as alteraçons climáticas que pode fazer da Galiza um lugar de segunda residência, o que traz consigo um custo importante para o nosso território, já mui mermado, que será agravado com a chegada do AVE”.

Tanto Estefanía Calo como Roberto Tomé-Castro chegam a mesma conclusom: estamos a viver as consequências de um modelo residencial centrado na vivenda como mercadoria.

“Por desgraça, som as alteraçons climáticas que pode fazer da Galiza um lugar de segunda residência, o que traz consigo um custo importante para o nosso território” (R. Tomé-Castro)

Impactos da crise sobre as mulheres

A nova crise, tal como apontam as vozes consultadas, traz consigo também um impacto de género que se traduz numha maior afetaçom para as mulheres devido à maior precariedade laboral. Mas nom se encontra só esse problema. Assim, Helena Sanmamede advirte de que perante a ‘nova normalidade’ que se está a estabelecer “teremos que nos readaptar, mas as hierarquias estám a ser as mesmas”. Esta formadora acha que a pandemia acrescenta aumentos na realidade prévia, e que no caso dos cuidados “reproduzem-se os roles e mesmo se intensificam”. Expom também um caso: o cuidado e educaçom das crianças durante o confinamento nas casas: “A escola e o jardim de infáncia passam a se desenvolver no interior do fogar e, como era de esperar, todas essas horas a mais de atençom que as crianças precisam, que antes estavam ‘externalizadas’, som agora enfrentadas, em larga medida, polas mulheres”.

Helena recolhe umha das evidências que deixa esta pandemia, que o trabalho de cuidados é essencial na nossa sociedade, e salienta umha reivindicaçom do movimento feminista: “Cumpre inverter a ordem na hierarquizaçom dos trabalhos. Atualmente estám priorizados os trabalhos produtivos com umha remuneraçom ou umha contribuiçom direta ao capital, em que se dá a circunstância de serem os que tenhem maior presença masculina”. “O que o feminismo propom é que sejam os trabalhos de cuidados os que estejam na cúspide de importância relativa, nom tanto por serem os mais feminizados, mas por serem os imprescindíveis na vida”, aponta.

“Cumpre inverter a ordem na hierarquizaçom dos trabalhos. O que o feminismo propom é que sejam os trabalhos de cuidados os que estejam na cúspide de importância relativa” (H. Sanmamede)

Por sua vez, a professora Mónica Ferrín salienta três aspetos em que a pandemia tem um impacto sobre as mulheres. O primeiro deles é o da saúde pública. Assim, refere que a maioria do pessoal sanitário som mulheres e que estas fôrom as mais afetadas pola sua dedicaçom sanitária. A segunda área -coincidindo com o que expunha Sanmamede- é a dos cuidados. Assim, acha que durante o confinamento continuárom a ser as mulheres a dedicar mais tempo às tarefas domésticas. E acrescenta umha vivência: “Na minha profissom, por exemplo, um aspeto que se está a ver é que os homens começárom, em desespero, a enviar para jornais artigos para publicar e os das mulheres reduzírom-se”. E o terceiro ponto que expom Ferrín é o da violência doméstica, pois “neste contexto em que as mulheres nom podem sair à rua os casos disparárom”.

“Na minha profissom, por exemplo, um aspeto que se está a ver é que os homens começárom, em desespero, a enviar para jornais artigos para publicar e os das mulheres reduzírom-se” (M. Ferrín)

Ferrín reivindica que na gestom desta crise vai ser necessário aplicar umha perspetiva de género, “pois vai ter consequências mui negativas para as mulheres que se encontrarem sempre em situaçons laborais mais precárias”.

O que pode acontecer no futuro? Esta professora da Universidade da Corunha situa-se numha disjuntiva. Indica assim um efeito positivo, que seria “a revalorizaçom de todas essas tarefas que fam as mulheres habitualmente, que som as pior pagas, e que nom sejam só as mulheres a assumirem esses trabalhos”. Porém, também teme que isto seja logo esquecido e aconteça justo o contrário, “que sejam elas a serem afetadas de forma mais intensa pola crise”.

 

Imagem da cabeceira: Alex Rozados.

Esta série foi froito de uma parceria entre Novas da Galiza e o Coletivo Amanhecer (adiante.gal & Galiza livre).

Deixe um comentário

Deixe um comentário