Mais aproveita o perdão

Bursário de figuras para educação de príncipes celtas | Mael Duin

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“Forsan et haec olim meminisse juvabit”
(Eneida, 1, 203)

“And Aed the fair, chief poet of Ireland, wrote them down, that the men of Ireland might delight in them forever.”
(The Book of Wonder Voyages, Joseph Jacobs)

Todas as histórias têm um começo, por mais que com o tempo venham se corrigindo, modificando e imaginando melhor. A ideia do bursário é velha. Tem a sua origem no feito de a gente da minha geração ou proximidade termos filhos. Cousa que, senão normal, quando menos é relativamente frequente, no espaço vital do ativismo reintegrata, cujas consequências (v.g. as escolas Semente com as suas imersões) serão visíveis nos vindouros anos.

Um bocadinho tarde, isso sim, dado que chegámos tarde e mal a toda a parte, nos estudos, na vida, no mundo laboral e social; com o que prolongamos, portanto, os nossos périplos e viagens iniciáticas. E dado que outra não havia, por aproveitarmos, que leva anos forjar as armas, aprender os feitiços e as línguas, ler nos livros e nas pessoas; e enfim, também pagamos nas alfândegas e nas portagens quanto cumpria e o que nos exigiram; e nas brigas, fomos perdendo nacos dos olhos, dos pés e das mãos, da alma e assim, fomo-nos tornando experientes.

E o interessante da experiência é que não apenas permite ir aprendendo, quanto que nos permite ir entendendo relatos, cantigas, ditos, poemas, metáforas antes escritas com mais claridade. Como apontamos, as mais das narrativas célticas são sapienciais; e, entre elas, há um subgénero, especialmente viçoso na literatura irlandesa, que é o das histórias e as viagens por mar. Trata-se dos Immrams, poemas, contos, e narrativas mais extensas, arredor de exploradores marítimos e das suas navegações.

O mais conhecido dos ciclos é o de Bran, nomeadamente na mais serôdia narrativa da Navegação de São Brendan. São Brandão, o Navegador, ou Brandão de Ardfert e Clonfert (ca. 484 – ca. 577), Barandão ou Borondão, o famoso monge e evangelizador irlandês, que tendo bem aprendido de Jonas e tomando exemplo do Sant-Iago da Galiza, foi-se pelo Atlântico adiante, decidido a cristianizar os pagãos do Além-mar.

Cousa a de navegar, que não devia ser infrequente, pois os episódios de navegação inçam as histórias; como sabemos, pouco depois o bom bispo Maeloc, chegou e fundou Britónia e durante vários séculos as visitas de piratas e vikings não foram infrequentes. E, como prova, o Lebor Gabála Érenn (‘Livro da Tomada de Irlanda’) e estas narrativas das viagens e invasões por mar, presentes no universo artúrico, ou nas defesas dos bispos de Mondonhedo e Compostela: já grandes conquistas, já rapina, pirataria, mas em todo o caso, testemunham a existência de barcos capazes de percorrer o Atlântico carregados de mercadoria e de tripulações e até de frotas com embarcações equipadas para o combate.

Em 1976, o escritor e aventureiro Tim Severin imitando a viagem de Thor Heyerdahl no Kon-Tiki, concebeu e construiu um currach, baptizou-o Brendan e partindo da Irlanda rumou cara a América. Severin publicou um artigo no National Geographic Magazine e depois um livro, que reativaram a questão e o interesse nestas narrativas viageiras. O sucesso na aventura não demonstrou talvez que Brendam e outros navegantes irlandeses e vikings puderam seguir a mesma rota e aportar na América centenas e até milheiros de anos antes de Colombo, porém evidenciou, na prática, que podia fazer-se a viagem com meios muito escassos e com a tecnologia anterior ao ano 1000.

Barry Cunliffe, (Facing the ocean: The Atlantic and its Peoples, Oxford, 2004), sustenta que existe uma velha Europa Atlântica que vai da Islândia a Gibraltar, passando pela Galiza, onde milénios de vida voltados para o mar teriam feito do Atlântico um espaço comum e transitado, orgânico; e fundamental para entendermos tanto os relacionamentos e intercâmbios comerciais na idade do Bronze na do Ferro, quanto o hábitat, distribuição e formação das cidades, empórios comerciais e das comunidades.

Comércio por mar implica infraestruturas, portos, feitorias e vilas comerciais, promontórios, faróis, lugares estratégicos; mas também estabelecimentos comerciais, reinos prósperos, agendas e calendários: restos e jazigos que a arqueologia vai aos poucos analisando, num esquema geral –na Galiza– de desinteresse, destruição e a desídia patrimonial.

“Barry Cunliffe sustenta que existe uma velha Europa Atlântica que vai da Islândia a Gibraltar, passando pela Galiza, onde milénios de vida voltados para o mar teriam feito do Atlântico um espaço comum e transitado, orgânico.”

Porém, vai-se desenhando um esquema que evidencia que antigos irlandeses, galeses, bretões e galegos tinham uma relação mais próxima entre eles e com culturas do Mediterrâneo e da Europa do Norte, pelas rotas marítimas, do que com seus coterranos do interior das ilhas, com os continentais ou peninsulares. Navegavam-se as rotas conhecidas, com tempo propício. Mas o mar alto também se navegava, e explorava, numa tradição ininterrupta de navegação e descoberta que herdaram Irlandeses, Bretões, Galegos, Portugueses e Britânicos.

Narrativas há muitas, antigas e modernas, que hoje se explicam pela pesquisa e pela constatação de que o espaço atlântico era muito mais que o mar dos Celtas, sendo as navegações e o comércio por mar mais habituais, mais antigas e longas do que se pensava. E nesse sentido, a situação da Galiza por mar é a de centralidade nesse universo e ponto de conexão entre vários universos, rotas marítimas e culturas. De todas elas, a minha favorita é a história da navegação de Maíle Dúin (Immram Curaig Maíle Dúin, ‘The Voyage of Mael Dúin’s Coracle’, A Viagem do barco de Máel Dúin). História transmitida desde o século VIII, parcialmente preservada no Book of the Dun Cow, inteira num manuscrito do século XIV contido no Yellow book of Lecan e que a partir do o século XIX podemos topar fazendo parte de qualquer antologia de lendas, contos ou histórias de viagens célticas ou irlandesas.

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The Voyage of Máel Dúin. @Jim Fitzpatrick.90

Se a Peregrinatio Brandani, destaca por fazer da sua narrativa de explorações, estranhos encontros e contos fantásticos a base para desenvolver um rico simbolismo religioso, a Navegação do Curragh de Mael-Duin, que errou pelo oceano três anos e sete meses, oferece uma maravilhosa narrativa de piratas, druidas, construção naval, guerreiros, expedições, gatos mágicos, torres de sonho no mar, ilhas maravilhosas, árvores mágicas, demos a cavalo, donzelas encantadas, espaços mágicos, um repertório de bestas que parecem tiradas das imagens do Apocalipse do Beato de Liébana, meigos, rainhas encantadoras com novelos e uma colorida paisagem que parece congelar o tempo. 

“A ‘Navegação do Curragh de Mael-Duin’, que errou pelo oceano três anos e sete meses, oferece uma maravilhosa narrativa de piratas, druidas, construção naval, guerreiros, expedições, gatos mágicos, torres de sonho no mar, ilhas maravilhosas, árvores mágicas, demos a cavalo, donzelas encantadas, espaços mágicos…”

É provável que o sucesso da história de São Brandão, ao ser narrada com o seu rico simbolismo religioso de alegoria, abrisse o género à fantasia. O Immram Curaig Maíle Dúin é o melhor herdeiro conservado desta tradição. O autor ou autores tomaram uma história básica de descoberta, projeto de vingança e expedição punitiva por mar que termina em extravio, convertendo-a numa história iniciática que adapta em parte a viagem monástica e outras navegações lendárias para uma audiência mais ampla, plenamente pensada para suspender a atenção do ouvinte. 

O conto narra as aventuras do príncipe Mael Duín, filho póstumo de Ailill Edgebattle (Gume de Batalha) um poderoso chieftain e marinho, senhor e herói local dos Eoganacht/Owenaght no território de Ninus, nas ilhas Arrane de uma abadessa (prioresa, ou novícia) formosa e de alto linhagem* a quem viola numa expedição naval, pouco antes de ser por sua vez assassinado, no assalto e queima da igreja de Dubhcluain onde se defendera desprecavido sem os seus, por uma outra expedição naval de vingança e saqueio pelos homens do condado de Leix.

Após o nascimento, o menino foi levado em segredo por amigos, até à esposa do Rei das ilhas Arran; amiga íntima, curmã, ou irmã da abadessa. Mael é educado junto com os três filhos da Rainha, faz-se um homem e destaca-se em tudo quanto empreende, nos jogos, nos torneios e nas tarefas, pela sua habilidade, elegância, força e presença. Porém, por causa de um invejoso, descobre que não é filho do rei e não para até a rainha lhe confessar a sua origem.

“O surreal, as imagens descritivas do nunca visto, parecem dominar uma narrativa, puro realismo mágico, que como não podia deixar de ser, cativou a pintura de Urbano Lugris e as prosas de Álvaro Cunqueiro.”

Acompanhado dos seus três meio irmãos e contra as advertências da sua mãe adotiva, é recebido com festa pelos seus, mas na procura da sua origem, descobre o lugar e os feitos que levaram à morte do seu pai e, outra vez por murmurações, levado pela ira, decide ir na procura de vingança. Sob conselho, e seguindo as instruções do sábio Druida Nuca do condado de Corcomroe, constrói uma embarcação de madeira e couro, com velas, capaz para 16 (noutras versões para 60) homens equipados. Desobedecendo as específicas instruções do construtor acede, ante a insistência dos seus três meio irmãos, a embarcá-los e parte por mar para o Sul. Quando chegam às ilhas e já ouvem as vozes dos desprecavidos saqueadores, uma tempestade afasta a embarcação das costas conhecidas e deixa-os à deriva.

Com muito mar, o barco fica ingovernável, e quando a sequência a seguir pareceria a mais lógica, na consecução da narrativa de vingança e aventura realista, os ventos levam-nos a mares surreais. Cá começa um texto iniciático, por mares nunca navegados, uma «Odisseia celta», um Simbad das ilhas Arran que nos mergulha no mundo das ilhas misteriosas e do Outro mundo nas ilhas do Oeste

A narrativa resultante é um híbrido céltico-clássico-oriental, com presença de citações de Virgílio, da Vulgata, e de aventuras cuja origem desconhecemos, mas que podemos rastrejar nas Mil e uma noites, que tornam a sucessão sem pausa de fantásticas e um pouco surreais aventuras, numa iniciação que nos deixa sem fôlego, e serve para um final abrupto, circular, cristão e edificante.

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‘The Voyage of Máel Dúin’. Green Gallery (Dublín).

As formigas gigantes, o moinho de moer o destino, o gato mágico semelhante ao de Alice com os seus tesouros encantados, os frutos desconhecidos, a ilha dos doidos e do riso incontrolável, a dos felizes ébrios, mas sem memória, o grande pássaro, a morte do irmão desobediente, a perda do outro, a ponte de cristal e o novelo mágico da Rainha namorada como Circe, na ilha em que o tempo não passa, as torres quase no ar, os fortes e castelos, cada uma das ilhas, terras e estranhas criaturas e paisagens, competem, bebem e dão de beber, as histórias de Ulisses, EnéasSimbad, à Marco Polo anotado por Cristovão Colombo ou a Peregrinação de Mendes Pinto. E os ecos chegam mais longe, nos romances e cantigas onde o mar e as ilhas chamam ou é caminho, na história de Ponto, no desembarque do Príncipe Negro, na épica da volta do An alarc’h ou na aguardada de Artur desde o Avalon, na filha do muinheiro do Tri Martolod, no embarque de Moore, em poemas de Tennyson ou de Avilés de Taramancos. O surreal, as imagens descritivas do nunca visto, parecem dominar uma narrativa, puro realismo mágico, que como não podia deixar de ser, cativou a pintura de Urbano Lugris e as prosas de Álvaro Cunqueiro. Paga a pena ler

“A narrativa resultante é um híbrido céltico-clássico-oriental, com presença de citações de Virgílio, da Vulgata, e de aventuras cuja origem desconhecemos, mas que podemos rastrejar nas ‘Mil e uma noites’.”

Enfim, deixar-se guiar pelas palavras empeçonhadas de invejosos, vingativos e misturadores não é nunca boa ideia, também não é ignorar os conselhos de uma mãe sábia e Rainha, e menos saltar-se as recomendações dos construtores de barcos. No percurso da viagem, porém é muito o que vemos, e mais o que aprendemos. Entre elas que a vingança sanguinária é nada e que mais aproveita o perdão e deixar ir as velhas ofensas. 


Agora, suponho que como diriam Cavafis e Llach, o importante é a viagem. Afinal, como havia que fazê-la, talvez um dia tenhamos o prazer de lembrar, para outras gentes que venham, tanta cousa


É de destacar que entre tantos detalhes de família e linhagens, nem o nome da rica abadessa, nem o da poderosa mãe adotiva, nem até o da Rainha da ilha, em cuja companhia amorosa passa Mael Duin a maior parte do tempo que dura viagem, são mencionados.

Valladolid, 17 de outubro

Ernesto Vazquez Souza

Ernesto Vazquez Souza

Crunha, 1970. Licenciado em Filologia Hispânica (Galego-Português) 1993, e também Doutor nas mesmas áreas (2000) pela Universidade da Crunha. Pesquisou entre 1994 e 2000 pelos principais arquivos e bibliotecas da Galiza; e pelos de Madrid, Alcalá, Salamanca, La Habana, Montevidéu e Buenos Aires. Participou no Programa Intercampus (Pelotas Brasil-RS, 1995); foi professor visitante de Língua e cultura galega no Instituto Cervantes de Chicago (EE.UU) (1997), bolseiro da Deputação da Crunha (1997-98), leitor de Língua galega em Montevideu (R. O. Uruguai) no Curso 1998 (onde colaborou nas instituições da emigração e participou no Programa Radial Sempre em Galiza); durante os anos 2000-2001 foi bolseiro pesquisador de pós-doutoramento da UdC. A partir do ano 2001 mora em Valladolid, e trabalha como Bibliotecário nessa Universidade.

Especialista em história do impresso galego na etapa contemporânea, tem focado os seus contributos arredor do movimento das Irmandades da Fala, Ánxel Casal, o republicanismo, o laicismo e a maçonaria galega, e disto publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; atualmente é o diretor do Portal Galego da Língua.

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