Não deixes a tua língua cortar a tua garganta

Bursário de figuras para educação de príncipes celtas | Macha

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– “This is terrible”, she said. “I am pregnant and going into labour even now. That was a stupid thing for him to say.”
– “True,” said the messenger, “but he will die unless you race.”
– “What will be will be,” she said.
(A Little Book of Irish Myths)

O artesão está abstraído no momento. É uma manhã fresca de fim de verão e abriu completamente os portões do alpendre onde trabalha. A luz entra direitinha sobre a bancada e a plaina trabalha arreu, limpando em finas lascas a madeira. De quando em quando suga saudoso da bombilha do mate acarão, e divaga.

Neste cenário, a voz de uma boa amiga coa-se pela porta do fundo. E, depois de falar do tempo, dos filhos, do campo, das qualidades da madeira, da desfeita cultural, social, arquitetónica, paisagística, da política e a corrupção, de lembrar casos e cousas dalguma gente e de projetos vários –é dizer, quando corresponde– espeta irónica: Olha e tu quando vás fazer algum desses títeres de mulheres?

Ponho-me a explicar que as figuras são símbolos… e que os gêneros… Mas, como ela diz escaralhando-se: Os homens não sabedes mais que falar… Faz uma.

Eu rio também. Clientas sempre têm razão, e isto funciona  –era visto– por pedidos.

Nuns dias foi-se lavrando na madeira a figura de Macha, à carreira, entre cavalos. Sem dúvida na narrativa e cultura céltica, anterior ao cristianismo (ou subjacente) há, junto a tantos altos reis, meigos, sábios, druidas e guerreiros, não menores guerreiras, deusas, fadas, rainhas experientes e mouras encantadas. As mais delas passadas a negativo ou reduzidas em atributos de magia, sedução, perversidade e maldade nos ciclos canónicos da narrativa medieval cristianizada.

Porém, o arquétipo, conserva-se: a moura, a cavaleira, desafiante e protagonista, a deusa dos sonhos, da prosperidade, a senhora mágica e encantada a lavar cabelos no rio ou sobre as mais mágicas pedras com pente de prata, que oferece e se oferece, sempre após uma prova, um desafio, ou uma sorte de adivinhas, ou todas elas a todo de teste moral, físico, intelectual, com os seus tesouros e portas para além, e em muitos casos até com uma descendência que garante o pacto e linhagem dos heróis e os reis com a Terra. O fundo percorre toda a geografia das culturas célticas, para-célticas e atlânticas, perdurando mesmo em Roma e no folclore e santoral posterior.

Rigatona-Epona é habitualmente representada como rainha guerreira, dacavalo num branco corcel, junto com Rhiannon-Macha (a deusa, a moura e até uma das Morrigan) está associada com a guerra, os sonhos e o mundo dos mouros, a prosperidade da casa e a fertilidade. Provavelmente, o sucesso e até as representações, atributos e tradições populares da Virgem Maria no cristianismo, provêm – como muitas vezes lembra o genial André Pena Granha desta fonte e tradição anterior.

Por igual neste esquema estaria o mito subjacente e histórias populares arredor das Mouras galegas e da mítica Rainha Lupa, que também se conserva bela e dominante, com os seus tributos de vacas, cavalos, e até com esse cavalo branco que segundo a tradição perde num jogo de palavras retorneadas, com o Senhor Santiago quando este andava pelo mundo a pé, sacola e bordão, disfarçado de peregrino verde, pardo ou cinzento, no melhor estilo de Odin, de Gandalf, ou do habilidoso Govanon/Gofanon, (aka Goibniu, Goban).

Epona, na web thaliatook.com.

A figura está ligada com os ciclos da vida e a passagem das gerações, mas na permanência de um vínculo e, como dualidade, embaixadora, mãe de heróis e reis, e passagem ao outro mundo. Em qualquer caso existe uma tripla característica: a sua aparição supressiva e iniciativa, a sua permanente beleza sedutora e a sua oferta, sabedoria, dom da palavra, crítica e bom conselho, como garantes da prosperidade.

Conselhos e sentido comum que não são respeitados pelos seus homens, que levados de orgulho e de precipitação, soltam a língua a pascer. O que tanto na história de Rhiannon quanto na de Macha desencadeia os acontecimentos.

Em qualquer caso existe uma tripla característica: a sua aparição supressiva e iniciativa, a sua permanente beleza sedutora e a sua oferta, sabedoria, dom da palavra, crítica e bom conselho, como garantes da prosperidade. Conselhos e sentido comum que não são respeitados pelos seus homens, que levados de orgulho e de precipitação, soltam a língua a pascer.

Rhiannon (com o significado de Maid of Annwn ou até como variante de Rigatona, A grande Rainha/Deusa), é uma figura proeminente na antiga literatura galesa, mãe do feérico e surreal herói Pryderi, esposa de Pwyll e mais tarde de Manawydan fab Llyr (irmão dos nossos conhecidos Branwen e Bran). Aparece, com este nome e sendo a mesma personagem, no primeiro e terceiro ramo dos Mabinogi (The Mabinogi of Pwyll Prince of Dyfed e The Mabinogi of Manawydan fab Llyr) e também, mais tarde aparece mencionada no primitivo ciclo da prosa Artúrica no conto de Culhwch and Olwen.

Rhiannon aparece como uma invencível ginete feérica, que se oferece ao Príncipe Pwyll de Dyfed, após este superar diversas provas. O dia do seu casamento Pwyll promete –contra as advertências da noiva– a um estranho que aparece o favor que este pedir, mas esse favor resulta ser a futura esposa no prazo de um ano. A solução, truque e proteção contra o misterioso mouro que identificará com Gwawl fab Clud, dará-lha com ela Rhiannon a Pwyll após recriminar-lhe a sua imprudência.

Após o casamento virá a segunda parte do conto com a adução ao mundo das fadas do filho de ambos Gwri (Pryderi), e a montagem e falsa acusação de assassinato do filho, com o castigo a trabalhar como cavalo transportando gente nas costas. Recuperado o filho, este será rei, e protagonista por sua vez de uma história de fadas e desaparições. Pryderi dará a sua mãe viúva em matrimónio a Manawaydan. a ambos criticará abertamente e aconselhará.

Há um link próximo fora do tempo e do espaço desta época das lendas galesas e já pertencente a quase histórica ou proto-história dos antigos reis da Irlanda, na História dos gémeos de Macha.

A histórica começa tempo após da morte da primeira mulher de Cruinniuc, um não muito afortunado fazendeiro do Ulster. Um dia, Macha aparece no seu lar, e sem mais dizer, começa a arrumar a casa, a dar ordens aos criados, e a atuar como se fosse a sua esposa, à noite ela deita-se com ele. Tanto mais tempo vive na casa, mais enriquece a fazenda de Cruinnic e até lhe anuncia que está grávida.

Porém, e contra as advertências dela para não ir e de ir não falar deles numa das grandes festas que reuniam arredor do Rei multidões, Cruinniuc assiste, e levado da conversa e da bebedeira, larga após a grande corrida de cavalos, que a sua dona é mais rápida nos seus pés que os próprios cavalos do rei, que são magníficos.

Quando estas palavras chegam aos ouvidos do rei Conchobar, este, encolerizado, faz prender ao fanfarrão. E obriga-o só pena de morte a que a sua mulher venha competir contra os seus cavalos. Encerra a Cruinniuc na masmorra e envia mensageiros à isolada propriedade.

Rhiannon-Macha, na web sacredwicca.com.

Quando os mensageiros apresentam as demandas do rei, ela explica-lhes que está grávida e o parto está a chegar e que o desafio do rei é uma loucura. Mas são inflexíveis. Pede para demorar a corrida até depois do parto, mas as ordens do rei são para já, ou o seu homem será executado.

Pese a todas as suas queixas, desculpas, lamentos, imprecações e advertências, e entre as gargalhadas do rei e a corte, é obrigada a correr contra os cavalos do rei, aos que, para surpresa geral, supera. Mas, em chegando a meta deita-se a parir entre dores e gritos. Após o nascimento dos seus gémeos, ergue-se terrível em dignidade e profere uma maldição que afetará os guerreiros do Ulster por nove gerações e que consistirá em que na hora de mais perigo e necessidade para o reino terão durante cinco dias uma debilidade e dor como a das mulheres no parto.

Profere uma maldição que afetará os guerreiros do Ulster por nove gerações e que consistirá em que na hora de mais perigo e necessidade para o reino terão durante cinco dias uma debilidade e dor como a das mulheres no parto.

Mas a história parece fragmentar, aproveitada para o caso, faltado a lógica parte da escolha e a explicação de como Cruinnic sabe que ela corre mais que os cavalos. O conto dá razão do topónimo capital Emain Macha (os gémeos de Macha), e serve para introduzir a explicação de porque nenhum dos guerreiros do Ulster senão Cuchulainn pode resistir a invasão narrada no Táin Bó Cuailnge. Macha é a deusa da terra, a que escolhe e julga os heróis e os reis, e como castiga a soberba, o desrespeito e como os maus reis são guieros cara o desastre.

A verdade é que a língua pode mais cortar a gorja que a lâmina mais afiada. É ideia velha, das que se deve incorporar como aviso e ter sempre presente. O refrão se exprime e conserva, em todo o arco atlântico, em muitas formas. A minha favorita é : “não deixes a tua língua cortar a tua garganta” ou “não permitas a tua língua te esgorjar”. Há variantes (obviamente para os casos de língua mais longa e falabaratos profissionais) com enforcar.

Valladolid, 3 de setembro.

Ernesto Vazquez Souza

Ernesto Vazquez Souza

Crunha, 1970. Licenciado em Filologia Hispânica (Galego-Português) 1993, e também Doutor nas mesmas áreas (2000) pela Universidade da Crunha. Pesquisou entre 1994 e 2000 pelos principais arquivos e bibliotecas da Galiza; e pelos de Madrid, Alcalá, Salamanca, La Habana, Montevidéu e Buenos Aires. Participou no Programa Intercampus (Pelotas Brasil-RS, 1995); foi professor visitante de Língua e cultura galega no Instituto Cervantes de Chicago (EE.UU) (1997), bolseiro da Deputação da Crunha (1997-98), leitor de Língua galega em Montevideu (R. O. Uruguai) no Curso 1998 (onde colaborou nas instituições da emigração e participou no Programa Radial Sempre em Galiza); durante os anos 2000-2001 foi bolseiro pesquisador de pós-doutoramento da UdC. A partir do ano 2001 mora em Valladolid, e trabalha como Bibliotecário nessa Universidade.

Especialista em história do impresso galego na etapa contemporânea, tem focado os seus contributos arredor do movimento das Irmandades da Fala, Ánxel Casal, o republicanismo, o laicismo e a maçonaria galega, e disto publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; atualmente é o diretor do Portal Galego da Língua.

PGL.gal
Bursàrio, Bran, príncipes celtas

Quem quiser pontificar que faça as pontes

Dentre as histórias e figuras que temos na bolsa e que o conhecimento e a experiência (adquirida em boa proporção tanto à base de paus como de leituras), destacamos hoje a história com a miga do dito famoso de Bendigeit Bran, filho de Ler, rei da Ilha Grande da Bretanha num dos tempos remotos em que o Gales era o centro desse brumoso mundo atlântico, em que a divisão entre os seus, e a guerra com os parentes era a mesma, marcante continuidade e final ruína de todas as casas.

Ernesto Vázquez Souza. Licenciado em Filologia Hispânica (Galego-Português)

Pendragão

O que mais interessa é essa figura de líder fulgurante na escalada ao poder, ambicioso, atrativo, sedutor e genial, implacável com os inimigos e que sabe domenhar os aliados com dura mão, génio na batalha e herói na luta. Mas que não sabe ser na vitória.

Ernesto Vázquez Souza. Licenciado em Filologia Hispânica (Galego-Português)

Bursário de figuras para educação de príncipes celtas

Parece ser norma e costume entre as nações celtas expulsar, não os mais belicosos, violentos, arriscados, revoltosos e selvagens dos seus filhos, quanto os que se assinalam, por diversa causa como conflituosos e destemidos (quer dizer, os subversivos para com essa delicada paz social consagrada em imobilismo e normalmente equivalente a dominação dos poucos sobre os muitos) e largá-los mundo adiante, em bandas, ou individualmente, a se desbravar, fazer experientes e aprender paciência.

1 comentário sobre “Não deixes a tua língua cortar a tua garganta

  1. Fantástico relato, vivi nele polo pedaço que demorou a sua leitura. Tão bom reivindicar, e reinventar, a nossa maravilhosa mitologia, o melhor do que a realidade de senhoritos desmemoriados… (paro por aí)
    Fez-me lembrar um verso meu em Se Os Carvalhos Falassem:
    Se os carvalhos falassem
    não ficaria eu tão só
    e as minhas conversas deixariam de ser
    monólogos que me queimam na gorja..

    É a língua não falada, o monólogo silandeiro, corrói mais do que a sosa caustica…
    Gostei imenso, caro, obrigada !!

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