"O movimento obreiro tecera umhas enormes redes sociais que o fascismo destruiu quase por completo”

ENTREVISTA | Eliseo Fernández

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Antom Santos | Lugo | 29 de abril de 2020. A imagem dominante da história contemporánea da Galiza remite-nos ao mundo campesino, a certa paz social, e à afirmaçom titubeante da identidade, através dos versos, os tratados intelectuais e um culturalismo quase sempre temeroso do poder. Relato demasiado parcial e muito interessado que deixa de lado aquele proletariado autodidacta que, aproveitando a nossa ubicaçom como um dos centros do Atlántico, editou imprensa, abriu ateneus, condicionou eleiçons, convocou greves ou teceu redes clandestinas para apoiar revolucionários expulsados por indesejáveis de vários países da América.

Falamos com Eliseo Fernández, militante libertário que tem realizado um valioso contributo intelectual sobre a luita de classes na Galiza. Edicións Positivas acaba de publicar o volume Nacionalismo e Anarquismo na Galiza (1840-1940), escrito por ele com Dionisio Pereira.

Desde muito novo, compaginas o interesse polo passado com a participaçom no movimento libertário. Foi a consciência anarquista a que te levou à investigaçom histórica?

Foi, si. O meu interesse é basicamente militante. Comecei a estudar Económicas, tinha intençom de fazer História, mas finalmente decantei-me por outra via. Nom me entusiasmava, o certo é que nom estudava muito, e nessa altura entrei em contacto com o movimento anarquista e comecei a militar. Ao mesmo tempo, lim todo o que me caía nas maos, nomeadamente imprensa libertária clássica, e cada vez parecia-me mais interessante o que tinha a ver com a Galiza, pois nom havia nada trabalhado. Nos anos 80 tínhamos apenas o que saía na enciclopédia galega, muito bem feito, a duas maos, entre Dionisio Pereira e Manuel Fernández, um histórico da CNT. O conhecimento era muito pouco, porque tampouco a universidade se dedicava ao movimento obreiro, e muito menos ao anarquismo. Eu comecei, nom a investigar, mas si a recompilar informaçom, ao primeiro por interesse pessoal; e num processo quase natural, dei por ir publicando algumha cousa sobre aspectos desconhecidos. Depois, no 89, preparei oposiçons de administrativo do Estado e tivem que marchar a Madrid, onde me dérom o destino. Ali militei no movimento da ocupaçom, e ali foi também onde conhecim gente ligada à investigaçom histórica, e trabalhei muito, fundamentalmente na hemeroteca municipal de Madrid. Pode-se dizer que aí entrei num nível mais sério.

Nunca apostache pola dedicaçom profissional à história?

Nom, eu de facto tenho umha ideia particular: prefiro nom trabalhar naquilo que gosto, para nom acabar odiando-o. Para mim a história foi algo que fixem além do trabalho, e seguindo os meus ritmos. Isso tem a parte má de ser todo muito mais demorado, sem a constáncia dum profissional, mas também a avantagem de poder decantá-lo todo, porque o tempo dá perspectivas, ajuda a madurar as cousas. Muitas vezes penso que se tivesse escrito sobre certos acontecimentos há dez anos, por exemplo, teria dito muitas parvadas, mas o facto de conservar o material e reflectir sobre ele dá outra óptica. Depois de seis ou sete anos em Madrid, dedicado ao vaziado de todos os jornais anarquistas que topei na hemeroteca, passando tardes inteiras, e baleirando em fichinhas, tinha umha ideia global do movimento. Entom esse foi o meu primeiro trabalho, um vaziado de todas as notícias que se publicárom relativas a Galiza no periódico CNT. Mas ainda nom era um trabalho de historiador, podemos chamá-lo de recompilador, para ser estritos. Serviu-me para situar-me e apoiou projectos posteriores. Naquela altura entro em contacto com Dionisio Pereira, que tinha publicado A CNT na Galiza, acho que corria o ano 1992.

Que imagem do movimento obreiro na Galiza, o histórico, podia dominar entre nós nos anos 90? Qual era o lugar comum com o que vos encontrávades?

Existia a ideia de que o movimento obreiro nom tivera muita importáncia na Galiza, de que fora algo residual num país agrário (precisamente o agrarismo era o que mais se estudava). Dizia-se também que nom tinha relaçom com as correntes políticas dominantes na época, nem as estudadas, nem as menos conhecidas. A universidade trabalhara muito o nacionalismo e o republicanismo, mas isso ficava de lado. A presença anarquista, em concreto, quase nom estava analisada. Entom, a minha primeira sensaçom foi de surpresa. Aquele movimento obreiro tam potente e conhecido do Estado espanhol também existira na Galiza, com características de seu. Bem é certo, as suas dimensons podiam nom ser as de outras latitudes, mas por exemplo na Corunha, na vida política e social da cidade, tinha umha importáncia fundamental. Poderíamos dizer que foi o movimento social mais importante da história, na cidade da Corunha, até o dia de hoje: a nível de arraigo, de implicaçom, de activismo quotidiano, acho que o nível do movimento libertário corunhês nom chegou a repetir-se nunca.

“Aquele movimento obreiro tam potente e conhecido do Estado espanhol também existira na Galiza. Na Corunha tinha umha importáncia fundamental. Foi o movimento social mais importante da história na cidade. A nível de arraigo, de implicaçom, de activismo quotidiano, acho que o nível do movimento libertário corunhês nom chegou a repetir-se nunca.”

E como sintetizarias, para um nom iniciado, as características deste movimento? Que obreirismo te topache?

Sintetizar é complexo, mas poderia dizer que é um movimento que durante décadas vive um processo de acumulaçom de forças, e que em 1936 está num ponto de madurez importante, com muita implantaçom no mundo urbano, também nas vilas, cada vez mais imbrincado em lugares mais pequenos, muito vencelhado com o mundo da emigraçom. E nom unicamente com os emigrantes galegos e retornados, senom também com expulsados de outros países que se instalavam aquí. Este movimento, muito dinámico e com influência social, tinha umha faciana mais revolucionária que representava a CNT, e umha outra mais gradualista, menos radical, menos espontáneo, que era o socialismo, com um nível de organizaçom e logística importante. Há que dizer que este movimento, em conjunto, nunca tivo força abondo para dirigir um processo revolucionário, ainda que o tentou; por exemplo em 1933 na comarca da Corunha, ou em outubro de 1934. Em 1936, o movimento libertário era um movimento ainda em formaçom. Nom, nom existia essa massa crítica para umha mudança social global.

Como se relacionou este movimento com a sociedade rural, que parecia mover-se em outras chaves?

Em parte houvo um desencontro, isso é inegável. Há que levar em conta que o movimento obreiro sempre se moveu por volta dalguns clichés, por exemplo em relaçom à língua. Socialistas, anarquistas e comunistas utilizárom praticamente sempre na sua propaganda o castelhano, o qual é contraditório com um movimento de raiz absolutamente popular. Pessoas que provavelmente no seu ámbito falavam quotidianamente em galego, para a intervençom política oral ou escrita consideravam mais ajeitado utilizar o castelhano. Esta foi umha das eivas que tivo o movimento na sua relaçom com o mundo agrário. Logo, no ámbito internacional e no ámbito do Estado havia outros clichés nas formas de agir, que chocavam certamente com a idiosincrásia galega. O nosso rural na realidade nom tinha muito a ver com aquele do que se falava em outros países: pequenos proprietários, agricultores empobrecidos, que nom possuíam mais que a sua fonte de subsistência, nom podiam por exemplo entrar nesse sindicalismo, ao considerarem-se proprietários. Se a isto somamos as condiçons sócio-políticas específicas do país, a importáncia do caciquismo, por exemplo, podemos ter umha ideia dos vários obstáculos que impedírom o movimento anarquista ou socialista penetrarem com força no rural.

Mas os historiadores falades também de contra-exemplos, de alianças obreiro-campesinas, como as que se produzírom na contorna da Corunha.

Si, houvo-as. O conhecido caso de Unión Campesina, na primeira década de século, na contorna da Corunha, e que teceu alianças muito inovadoras na época; é o melhor exemplo das tentativas de rachar essa dissociaçom. Mas som tam heterodoxos que ao final racham: apresentam-se às eleiçons, aliam-se com forças republicanas que se consideravam burguesas. E claro, de tam heterodoxas, essas propostas nom vam avante, quiçá na época o movimento ainda nom tinha a madureza suficiente para aceitá-las. E assim foi que a Unión Campesina se fractura internamente, rompe com o movimento obreiro na Corunha…mas si que durante um pequeno tempo, 1907-1910, aproximadamente, dá-se umha experiência muito curiosa e muito interessante, e mostra que desde umha visom internacionalista existe também umha preocupaçom com o agro.

“Pessoas que provavelmente no seu ámbito falavam quotidianamente em galego, para a intervençom política oral ou escrita consideravam mais ajeitado utilizar o castelhano. Esta foi umha das eivas na sua relaçom com o mundo agrário”

Em que medida a existência dum forte movimento republicano prévio, também bastante desconhecido, contribuiu para a emergência do obreirismo?

Eu acho que o republicanismo está na base do movimento obreiro na Galiza. É o republicanismo mais radical o que impulsiona a criaçom de sindicatos em várias localidades, como a Corunha ou Ferrol. Essa relaçom logo rompe, porque o republicanismo parte da concepçom de entender o obreirismo como a sua base eleitoral. E claro, quando os interesses da classe trabalhadora e dos republicanos começam a chocar, a contradiçom está servida. Na Corunha, como em outros lugares, muitos republicanos eram também patronos. Ora, nos inícios, nas décadas de 1870, 1880, no ámbito divulgativo, na imprensa e difusom das ideias, o republicanismo joga um papel primordial. Há também tentativas de cooperativismo, de escolas laicas e livre-pensadoras…existe umha comunidade de interesses que apriori pareciam sobrepor-se à diferença de classe. Mas ao cabo esta acaba por impor-se, sobretodo com o republicanismo ligado com a burguesia médio-alta. Chegado um ponto, o movimento obreiro nom podia encaixar nos interesses eleitorais dos republicanos, pois o obreirismo procurava umha dinámica de seu, um calendário próprio, condicionado pola conflitividade nos centros de trabalho. Os tempos som distintos, e o conflito vai em aumento. Por citar um exemplo, na II República, durante um comício de Azaña na Corunha, anarquistas organizam um protesto, e nos enfrentamentos com o serviço de orde há um morto.

Parece também que foi determinante a influência internacional: a do pensamento, através da imprensa e dos livros, mas também de pessoas físicas que, polo papel da Galiza no Atlántico, recalavam na nossa terra.

Eliseo Fernández.

Si, essa é umha das cousas que mais impactam ao estudioso: comprovar que o movimento tem umha influência tam grande, mesmo numericamente falando, de gente de fora, que está tam ligado com pontos do mundo tam distantes. Todo começa através de publicaçons e correspondência, mas logo vai além. Há que levar em conta que se olhamos a Galiza do ponto de vista do Estado espanhol, é a periferia; idealmente, como o extremo dumha sociedade organizada desde Madrid; mas na altura da viragem de século, o grande movimento de pessoas que se estava a dar era nas linhas trasatlánticas: da América cara a Europa; e todas passavam pola Galiza. Também por Cádiz, direcçom Barcelona-Mediterráneo, e obviamente polas nossas costas: as linhas do cono sul, Brasil, Argentina, Uruguay, polo porto de Vigo, e as linhas de Estados Unidos, Cuba e Golfo de México, polo porto da Corunha. Estas linhas continuavam aliás aos portos cantábricos, a França, e chegavam ao Báltico. Entom aí havia um grande movimento de gente.

Havia um movimento contínuo de activistas e de ideias entre a Galiza e América…

Um caso curioso é dum emigrante galego, Abelardo Dias, expulsado do Brasil. Era filho dum pontevedrês, anarquista, ele era libertário também, e foi expulsado do Brasil cara Vigo em 1919. Pola sua ascendência, houvo umha desputa diplomática sobre se era brasileiro ou galego, e no desembarque em Vigo continua rota cara o Báltico, sem levar mais que as roupas que tinha no Brasil, e dá conta do frio tremendo que passou. Isto conta-o num pequeno livrinho, Memorias de un exiliado, e sendo umha anedota, ilustra aquele movimento enorme de pessoas e de ideias. A inícios do século XX tem umha grande importáncia o fenómeno da expulsom, praticamente em todos os países latinoamericanos. Aprovam-se leis que promovem a expulsom dos agitadores ou indesejáveis, assim eram chamados, e cria-se assim umha grande corrente de circulaçom de sindicalistas. Temos o caso de muitos galegos que já militaram na Galiza, marcham à América, segum a foguear-se em luitas, som expulsados, e logo retornam; e também topamos emigrantes de outras zonas, de origens muito diversas, que acabam na Galiza um pouco por acaso, mas alguns deles ficam aqui. Um exemplo é o de Antonio Furnerakis, anarquista greco-argentino muito activo na Bolívia e na Argentina, onde salientara na solidariedade com Saco e Vanzetti. Lá onde havia um comício, encadeava-se numha árvore e dava umha arenga ali, por isso, entre outras cousas, ganhou fama. Expulsam-no, acho que no 32 ou 33 do Uruguay, e chega à Corunha. Ao dar com um movimento anarquista tam forte, integra-se nele. Foi membro da publicaçom Brazo y Cerebro, e morre em 1937 numha queda das redes clandestinas anarquistas da Corunha. Em Vigo, por seu turno, existiam uns comités pro-Perseguidos Internacionales, que facilitavam os meios para as pessoas perseguidas poderem viver, reintegrar-se à militáncia…enfim, que há vários casos dignos de mençom. Antonio Loredo, um libertário viguês, caveleireiro, quando queria ir à América, fazia que o expulsassem de Espanha; e quando queria vir à Galiza, fazia que o expulsassem da América. Um personagem interessantíssimo, que chegou a participar muito activamente nas revoltas da Semana Trágica de Barcelona em 1909, e diz-se que o nome que se lhe tem dado a Barcelona, la rosa de foc, provém dumha carta que escreve Loredo a uns companheiros da Argentina, em que el fala da cidade como rosa de fuego.

Portanto pode-se dizer que a Galiza era mais um elo dumha cadeia internacional.

Era-o, sem dúvida. Dumha cadeia, ou dum sistema de redes de colaboraçom muito amplas, com funçons diversas. E num projecto internacionalista como o obreirista, resultam ser fundamentais: as mobilizaçons dum lugar tenhem eco noutro, nesse sentido som redes informativas. Por exemplo, os sucessos de 1901 na Corunha, a importante greve dos consumeros, é conhecida no mundo graças a estas redes. Som as mesmas que facilitam a organizaçom em Ferrol, em 1915, do Congresso da Paz. Antonio Filgueira Vieites, um socialista, mas de orientaçom radical, foi expulso de Cuba, da Argentina, e também do Brasil. Depois de vermo-lo no comité organizador do Congresso pola Paz ferrolao, que decorre em maio, vemo-lo em novembro desse ano na organizaçom de outro Congresso em Rio de Janeiro. Por outra parte, eram redes técnicas, redes logísticas: quando Ricardo Mella quer publicar um livro sobre a repressom em Montjuic, ao bater com a censura espanhola, parece que o publica nos Estados Unidos, quanto menos o selo editorial é daquele país. O mesmo acontecia com a propaganda neomalthusiana, a favor da limitaçom da populaçom e do uso de anticonceptivos: esses trabalhos venhem dos Estados Unidos, ainda que se redijam aquí, e de mao dumha editorial corunhesa. E finalmente, estas redes internacionais som também solidárias num sentido inverso, e nos piores momentos repressivos vividos aquí, funcionam como mecanismos de fuga cara Portugal, cara América, cara França… há um ofício particular, o dos camareiros marítimos, em geral o dos empregados das rotas trasatlánticas, que penso fórom umha peça insustituível nesta engrenagem. O embarque clandestino, ainda sem conotaçons políticas, é umha tradiçom muito velha na Galiza. Utilizara-se para a nossa gente sem papeis, para quem fugia do serviço militar… e logo vam recorrer a eles os militantes obreiros. Graças a crónicas dos próprios implicados sabemos todo isto. Por dar um caso concreto, há um núcleo de militantes cataláns, libertários, da publicaçom El Productor, que se exilam em Cuba, e desde alô narram o acontecido: “paramos em Vigo, alô visitou-nos Ricardo Mella”. E com fontes assim, entre outras, os historiadores reconstruimos estas redes invisíveis.

“O galeguismo, já na sua fase regionalista, acusara sempre o movimento obreiro de ter esquecidos os labregos, a sua problemática; existia este discurso, nom sei se era apenas retórica ou umha preocupaçom real”

Que nos podes dizer do papel da difusom cultural? Em que medida o livro, a imprensa, os ateneus, espalhárom o ideário?

Em todo o movimento obreiro, mas de maneira especial no mundo anarquista, o livro e a brochura estivérom sempre mui presentes. As editoriais anarquistas galegas tenhem grande tradiçom. Por vezes eram quiosques, por exemplo o quiosque Nueva Escuela Moderna na Corunha era dum libertário, Álvarez Pérez, que vendia propaganda, também editava, fazia intercámbio… logo chegam os jornais diários anarquistas em Barcelona e Madrid, Solidaridad Obrera, mais adiante CNT… era importante a figura dos chamados “paqueteiros”: as pessoas interessadas nestes jornais, que tinham opçom bem de recebê-los em números soltos, ou bem de vender uns poucos a comissom. Esta pessoa, que ingressava um dinheiro, também podia mandar notícias, assim que se fazia umha certa rede jornalística obreira. No socialismo existia, mas em menor medida, pois era um movimento muito centralizado, e tinha mais peso o vozeiro oficial. No anarquismo a imprensa local era muito variada. Em qualquer caso, acho que de 1880 a 1936, com a excepçom de alguns anos espalhados polo médio, sempre houvo imprensa obreira na Galiza. Lucha obrera, El Socialista, El Corsario, Germinal, Brazo y Cerebro…a lista é longa. Mudam de localidade em funçom da repressom, da conjuntura, do cámbio de trabalho dos militantes…mas é sempre o mesmo esforço editorial. Na imprensa obreira havia contínuos debates sobre as práticas sindicais, muito de base, e eu considero que isso era elaboraçom teórica: sobre a questom eleitoral, sobre se deviam existir liberados ou nom, sobre se os sindicatos deviam de ser de ofício ou nom…nom é teoria de grande pensamento abstracto, mas respondia a um tipo de pensamento conectado com os interesses diários. Os debates das assembleias iam à imprensa, aí adquiriam carácter público, e assim nós podemos segui-los hoje.

É mui conhecido o desencontro de parte do movimento obreiro com a questom nacional, e particularmente com a causa galega. As desavinças conhecemo-las, mas poderias citar algum caso de certa proximidade ou compreensom mútua?

Há vários momentos e lugares de cercania parcial. Um deles estabelece-se por volta da questom agrária. O galeguismo, já na sua fase regionalista, acusara sempre o movimento obreiro de ter esquecidos os labregos, a sua problemática; existia este discurso, nom sei se era apenas retórica ou umha preocupaçom real. E acho que o caso de Unión Campesina, que citávamos antes, tenta solventar esse desencontro que com efeito existia, o desencontro entre o obreiro urbano e o camponês. A Unión Campesina alia-se com o agrarismo da época, e o agrarismo, como sabemos, tem certa influência galeguista.

No livro falades desas relaçons entre o anarquismo e o primeiro nacionalismo. Está o caso de Faraldo…

A capa do livro e uma cópia dum jornal anarquista. @EdiciónsPositivas

Sempre existírom confluências de pessoas concretas. Na primeira época, a mim interessa-me particularmente Faraldo. Lemos a publicaçom El Porvenir, e em geral a imprensa em que participa até 1846, com Romero Ortiz e Rua Figueroa, e vemos que se formulam certas ideias socialistas com certa vertente anarquista. Aí está a conhecida expressom “anarquia literária”, e isso está relacionado com a influência parisina de Ramón de la Sagra, que mais ou menos naquela altura está a colaborar com Proudhon. Mas todo está difuso, nom há categorias claras, e nom podemos dizer exactamente a que se refere o socialismo de Ramón de la Sagra. Nom diria que é confuso, diria que as palavras nom tenhem o significado exacto que lhe damos hoje. Eu acho que de la Sagra era um reformador com tendências socialistas, sempre muito ecléctico. Algumhas das suas ideias som revolucionárias, e outras, que tendiam muito à regulaçom estrita do trabalho, ao controlo quase total, hoje poderíamos riscá-las de reaccionárias. Isso si, é um pensador muito original, e em Faraldo tem pegada. Mesmo há historiadores que chegam a considerar El Porvenir o primeiro jornal anarquista. Quiçá a afirmaçom é muito aventurada. Claro, Faraldo e os seus o que fam é defender a anarquia literária. Numha carta, Ramón de la Sagra diz-lhe que lhe parece muito bem que pratiquem a anarquia literária, porque isso é um prelúdio à anarquia em outros campos. E claro, cumpre levar em conta que eles estám sempre a esquivar a censura, e isso explica parte da linguagem que utilizam. Entom eu nom interpreto aquí anarquia em sentido estrito, mas si vejo umha alusom à liberdade, a liberdade em outros campos. Dionisio Pereira e eu falamos no livro precisamente sobre isto, sobre as relaçons entre o anarquismo e a questom nacional galega, e nele vemos difícil enquadrar isto na tradiçom anarquista tal como se entende na actualidade. Acho que Faraldo nom está a falar do anarquismo de Proudhon, senom mais bem dum liberalismo extremo dumha geraçom que está em fase de experimentaçom.

Como é que as relaçons evoluíram?

Em tempos mais próximos, houvo sempre umha certa relaçom entre obreirismo e galeguismo, nomeadamente na cidade da Corunha. As Irmandades corunhesas, mui ligadas ao republicanismo, nom eram as de Ourense, por exemplo, entom havia certa fluidez nas relaçons. Sem ir mais longe, El nacionalismo gallego. Nuestra afirmación regional, de Vilar Ponte, publica-se na Tipografia Obrera Coruñesa. Há achegamentos mui curiosos. Topamos o caso de Antonio Ramos Varela, um ferrolao residente em Compostela, anarquista, que publica vários artigos em Solidaridad Obrera com o título Anarquismo e regionalismo, chamando um pouco a que os libertários recolham algumhas das ideias galeguistas, que nom se feche por completo ao que está a acontecer. As coincidências som visíveis na Corunha, e já em tempos republicanos, extendem-se a vilas, como a Guarda, onde militantes do Partido Galeguista estám nas sociedades anarcosindicalistas. Manuel Noya Gil foi nomeado alcalde da Guarda, era militante da CNT, mas por trás está também o Partido Galeguista. Trata-se de confluências muito práticas, ligadas a certas dinámicas. Ora, tampouco podemos esquecer os conflitos entre ambas as tendências. Um muito forte dá-se por mor das deportaçons de anarquistas, que som apoiadas, ou quanto menos som som combatidas polos deputados galegos da ORGA. Há umha tensom forte, dam-se mesmo interrupçons de comícios. Pensemos que eram dous movimentos que marcham em paralelo, com poucos momentos de contacto, e apoiados em distintas classes sociais, umha classe social baixa, e no outro lado umha classe social médio alta. Na II República começa umha porosidade de ideias, um certo trasvasse de militantes, mas isso é curtado radicalmente em 1936.

“Há umha tensom forte, dam-se mesmo interrupçons de comícios. Pensemos que eram dous movimentos que marcham em paralelo, com poucos momentos de contacto, e apoiados em distintas classes sociais, umha classe social baixa, e no outro lado umha classe social médio alta”

Sabemos a grandes traços o que aconteceu no 36, mas repara-se menos nas especificidades da repressom. Padeceu o movimento obreiro um castigo distinto ao que padeceu o republicanismo em geral? E dentro do obreirismo, como afrontárom o panorama as distintas tendências?

Si, há especificidades. Para começar, o sindicalismo, tanto socialistas como anarquistas, ou comunistas, protagonizam umha resistência armada ao golpe. Nos primeiros momentos, por exemplo, as novas autoridades obrigam a dirigentes obreiros a assinarem um documento a exigir o fim da greve geral que paralisava a cidade da Corunha, e como esta continua, som assassinados. Além disso, o movimento obreiro tinha umha rede muito ampla que permitia a recadaçom de fundos, que permitia o agocho dos perseguidos, que permitia a fuga a zona leal, ou ao exílio, e na medida em que isso seguisse existindo, seria umha grande preocupaçom para os golpistas, por isso cumpria destrui-lo. Logo, há umha especificidade anarquista, e é que este movimento, desde o seu nascimento, vivera em clandestinidade; nom assim o socialismo, que tivera etapas de colaboraçom com os governos, mesmo com a ditadura de Primo. Entom o fascismo enfrenta-se a um entramado muito amplo que destruir, é parte dele é subterráneo. Contava por exemplo a família de Manuel Montes, um libertário, que na sua casa havia um zulo, mas nom era um zulo construído durante o golpe, nem em vésperas dele. Levava muito tempo feito, porque nos anarquistas existia essa noçom de clandestinidade. Isso nom está nos militantes socialistas, nem nos galeguistas, nem nos republicanos. Assim, quando chega a resposta, o primeiro ajustiçamento de fascistas na bisbarra da Corunha, nos anos 40 ou 41, venhem da mao de militantes libertários.

E quanto ao comunismo…

Quanto ao comunismo, que na altura é muito pequeno, os seus militantes estám metidos nestas redes anarquistas, que ao cabo som as redes do movimento obreiro do que participavam. Isto vê-se às claras nas fugidas que organizam, nomeadamente na bisbarra da Corunha: ao cabo, nelas coincidem pessoas de todas as correntes obreiristas, sem distinçom. Logo, também cumpre ter em conta que a repressom contra o movimento obreiro nom se dirige apenas contra os elementos activos na época, senom contra todas aquelas pessoas que em décadas anteriores se significaram na mobilizaçom e protesto social; nesse sentido, tivo umha amplitude enorme. Eu acho que os golpistas aprendêrom muito da ditadura de Primo de Rivera e concluírom que, se umha experiência autoritária, por muito que se impuger, no varre os movimentos de raiz, o desafio continua. E entom, claro, o curte de liberdades nom abonda: cumpre o terror para que nada rexurda. Em parte conseguírom-no.

“Eu acho que os golpistas aprendêrom muito da ditadura de Primo de Rivera e concluírom que, se umha experiência autoritária no varre os movimentos de raiz, o desafio continua. O curte de liberdades nom abonda: cumpre o terror para que nada rexurda”

Pensas que o que xurde depois de 1936 e toda a repressom posterior é um movimento totalmente distinto?

Si, sem dúvida. Por partir da minha experiência pessoal, podo dizer que quando eu começo a militar no anarquismo na década de 80, o que ficava era a história. Havia fios, pessoas concretas, que mantinham umha tradiçom. Mas era um fio muito subtil. Parte dos libertários sobrevivintes daquela altura, na Transiçom, já concorrem em listas socialistas nas localidades, ou apoiam outras opçons. Há gente que mudou com as décadas e outros, que nom mudaram, vírom que o movimento que conheceram nom existe. Entom tomam essa opçom.

Esta desapariçom contrasta com a continuidade do comunismo. Por que essa diferença?

A situaçom internacional é chave. No contexto da guerra fria, a direita em bloco num lado, e a oposiçom orbitando arredor do socialismo real. Os anarquistas ficam numha situaçom muito incómoda, muito difícil. Confiaram em que as potências occidentais apoiaram umha restauraçom democrática espanhola nos anos 40, trabalharam com os socialistas por isso; mas isso fracassa. Logo tenhem que habitar umha terra de ninguém, sem apoio internacional, e o que restam som individualidades soltas, um aqui, outro alô… e cada um toma o seu caminho. O Regime conseguiu destruir o movimento anarquista, para mim foi umha derrota sem paliativos. Historicamente podemos inspirar-nos, podemos tomar o referente, a pegada política e ética, e levar em conta os núcleos que resistírom, mas a nível global, assim aconteceu.

Cumpre também ter em conta as novas condiçons sociais.

Certo. Na Europa, maio de 68 marcou umha mudança, e inspira umha nova versom libertária. No Estado espanhol, a falta de liberdades leva a abraçar na Transiçom umha proposta mais contra-cultural, de rebeldia individual… e isso viu-se reforçado pola falta de tradiçom, por um certo baleiro. Nesses anos viviu-se incluso um conflito geracional em cidades galegas, entre militantes que procediam do anarquismo histórico, e as novas fornadas. Os interesses de uns e outros som totalmente distintos, há que lembrar que falamos de gente de 70, 80 anos, convivendo com moças e moços de 20. A síntese era difícil, e eis para mim o que explicou as dificuldades do movimento. Fala-se do Caso Scala, da repressom, mas nom me parece o central, nom é umha explicaçom convincente. O anarquismo sempre convivera com a repressom, sobrepugera-se a ela. O que acontece agora é que se enfrentava a um tempo novo, onde funcionavam novas chaves, e o movimento libertário nom foi quem de reconstruir a sua potência.

O entrevistado

Eliseo Fernández

Eliseo Fernández

Ferrol, 1967. Licenciado en Documentación pola Universidade da Coruña. Profisionalmente trabalha como bibliotecario e é ademáis documentalista e investigador especializado na historia do movimento operário e do anarquismo na Galiza e tem colaborado com muitas atividades arredor da reivincaḉom das vítimas do franquismo. É autor dos libros A fuxida do Portiño (2009), como Carlos Velasco, Dionisio Pereira e Emilio Grandío; Obreirismo ferrolán (2005); e José López Bouza, do anarquismo ao republicanismo (2002). Colaborou em obras colectivas, tais como Os nomes do terror: Galiza 1936, os verdugos que nunca existiron (2017); Repensar Galiza: as Irmandades da Fala (2017); Bolcheviques, 1917-2017 (2016); War zone: la segunda guerra mundial en el noroeste de la Península Ibérica (2012); Santiago Casares Quiroga: la forja de un líder (2011); O darwinismo e Galicia (2009). Entre os seus artigos mais recentes encontram-se Escenarios de loita de clases e represión franquista na Galiza urbana: os casos de Coruña, Ferrol e Vigo, en Murguía: revista galega de historia, Nº. 31, 2015; e La Segunda República Española bajo el prisma del anarcosindicalismo ibérico: entre monarquías que se hunden y repúblicas que pierden pie, en Hispania Nova: Revista de historia contemporánea, Nº. 11, 2013.

Historias da Galiza

O entrevistado

Eliseo Fernández

Eliseo Fernández

Ferrol, 1967. Licenciado en Documentación pola Universidade da Coruña. Profisionalmente trabalha como bibliotecario e é ademáis documentalista e investigador especializado na historia do movimento operário e do anarquismo na Galiza e tem colaborado com muitas atividades arredor da reivincaḉom das vítimas do franquismo. É autor dos libros A fuxida do Portiño (2009), como Carlos Velasco, Dionisio Pereira e Emilio Grandío; Obreirismo ferrolán (2005); e José López Bouza, do anarquismo ao republicanismo (2002). Colaborou em obras colectivas, tais como Os nomes do terror: Galiza 1936, os verdugos que nunca existiron (2017); Repensar Galiza: as Irmandades da Fala (2017); Bolcheviques, 1917-2017 (2016); War zone: la segunda guerra mundial en el noroeste de la Península Ibérica (2012); Santiago Casares Quiroga: la forja de un líder (2011); O darwinismo e Galicia (2009). Entre os seus artigos mais recentes encontram-se Escenarios de loita de clases e represión franquista na Galiza urbana: os casos de Coruña, Ferrol e Vigo, en Murguía: revista galega de historia, Nº. 31, 2015; e La Segunda República Española bajo el prisma del anarcosindicalismo ibérico: entre monarquías que se hunden y repúblicas que pierden pie, en Hispania Nova: Revista de historia contemporánea, Nº. 11, 2013.

Historias da Galiza

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