Extinçom ou rebeliom

O colapso em curso: cúmios, propaganda, e acordar militante.

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Antom Santos | Lugo, 26 de xullo.  Desde 1992, quando o primeiro encontro polo clima convocava a atençom mundial em Rio de Janeiro, celebrárom-se um total de seis cúmios internacionais com a pretensa vontade de deter um “processo catastrófico”. De Kioto Bonn, passando por Copenhague ou Katowice, as palavras vazias dos dirigentes servírom para espalhar a ideia dumha acçom solvente, que na realidade encobria a passividade e, em consequência, a continuidade da desfeita. Mais de vinte cinco anos depois a voz de alarma dos expertos transformou-se umha nova consciência: o convencimento sombrio dum futuro inçado de perigos, mormente impredicível, que está já a desatar respostas populares. Emancipadoras algumhas, regressivas as mais, som os sintomas dum mundo no que já nom é possível viver nos moldes que a publicidade e a política democrática nos tinham prometido.

Quem se decidir a um repasso polas hemerotecas da década de 90, surprenderá-se de dar com alertas que resultam familiares; e ainda se abraiará mais ao considerar até que ponto fôrom desouvidas. A cumplicidade da dirigência política com os grandes interesses económicos mundiais, e umha certa incapacidade antropológica para o comum das pessoas olhar em fite os nossos demonhos, podem explicar esta paralisia. Como se recolhe numha conhecida cita filosófica, “o ser humano nom pode aturar demasiada realidade”.

Daquela, a consciência do estado de risco no que se adentrava a nossa espécie era quase privativa das minorias militantes, que por falarem claro tinham que enfrentar a conhecida chuva de desqualificaçons por apocalípticas e tremendistas. Num popular trabalho especialmente exitoso em círculos independentistas, ‘omunismo ou caos. A depauperaçom absoluta da mocidade basca o sociólogo Justo de la Cueva apontava alguns traços fortes do que ia ser o século que andamos: “chegará o Saara às fronteiras de Euskal Herria?”, perguntava-se o pensador basco em 1996. Enfrentaremos um caos mundial, continuava, “como consequência da acçom planificada, consciente e deliberada do homem. Como consequência da acçom dumha das espécies do planeta sobre as demais, forçadada polas suas classes dominantes em suicida e egoísta benefício a curto prazo da sua exígua minoria (…) Temos que ser quem de comunicar eficazmente a essa gente aparvada por Espanha e o capital que, se querem sobreviver à catástrofe planetária que nos ameaça, tenhem que plantejar-se seriamente connosco e como nós que cumpre eliminar do mundo o capitalismo”.

Na prosa asséptica do politicamente correto, as autoridades emitiam notas de imprensa para consumo de outras minorias, as elites cultas da classe média. Em 1993, o diretor do Programa Mundial para o Clima, David Carson afirmava que a encruzilhada coletiva na que nos adentrávamos apresentava zonas especialmente sensíveis: umha delas, a Península Ibérica, pola sua posiçom estratégica de transiçom entre biorregions, e polo seu papel geopolítico como porta cara África; naquela altura prognosticava-se que por volta de 2025 as grandes áreas climáticas poderiam ter-se deslocado 250 kilómetros para o norte; como assinalava A Associaçom Meteorológica Espanhola, o fenómeno iria coincidir com a “prática desertizaçom” do 50% do território peninsular; este nom seria mais que a antesala da conversom de amplas áreas africanas em terreno ermo, sem as mínimas condiçons para a habitaçom humana. O relato, que daquela sonava prediçom distópica, aproxima-se a muitas das imagens que cada dia podemos contemplar com os nossos ecrãs, e com a popularizaçom dum novo termo que dá conta da desfeita: “refugiados climáticos”.

E é que, com um bocado de vontade, o observador desprejuízado toparia há muitos anos retratos em perspetiva do nosso presente. Já no documento que inaugura a consciência da crise ambiental planetária, Os limites do crescimento (1972), advertia-se que a indiferença e a inércia eram algumhas das piores opçons que podíamos tomar: “a decisom de nom fazer nada aumenta o risco de colapso”, manifestava-se. E ainda que o texto foi um best seller mundial publicado em 29 idiomas distintos, avalado mesmo por empresas tam influentes como Fiat ou Volkswagen, decorrêrom quase duas décadas mais na total ausência de medidas decisivas. Tal foi assim que em 1991 três dos quatro científicos que redigiram o texto do Clube de Roma insistiam no documento Além dos limites do crescimento: “se nom houver reduçons consideráveis nos fluxos de energia e de material, o mundo está abocado a um devalar rápido e fora de controlo”.

O turismo de massas, o comércio global por ar, mar e terra, as infraestruturas e transportes militares, e até mesmo umha grandíssima parte do consumismo supérfluo, estám abocados a esboroar no médio prazo histórico marcado polo ‘peak oil’.

O Cúmio de Paris celebrou-se há dous anos num Paris submetido à lei marcial que, com o pretexto dos ataques islamistas contra a populaçom civil, utilizara-se para reprimir as mobilizaçons ecologistas que exigiam a descarvonizaçom da economia. O acordo saldou-se com medidas nom vinculantes sostidas na vontade — nom fiscalizada — “de evitar subas do clima por riba dos 1,5º no que resta de século”. Os fracos consensos discursivos da capital francesa nom demorárom em rachar, quando um aberto negacionismo tomou posiçom na Casa Branca. O encontro mais recente, celebrado na Polónia, ratificou o gosto da dirigência política mundial polo ‘modo flatus vocis’, umha forma de discurso baseada em palavras totalmente desconectadas da realidade à que aludem. Patrícia Espinosa, secretária executiva da ONU pola mudança climática, sintetizava em grandes lugares-comuns sem concreçom o reto da humanidade: ‘os países contam com um forte respaldo para umha acçom climática rápida, já que a consciência pública e a procura de soluçons aumentárom, ante a clara evidência do nosso clima estar a mudar. Simplesmente, nom podemos dizer a milhons de pessoas de todo o mundo que já estám a sofer os efeitos da mudança climática que nom temos cumprido.’

Cientistas e pesquisadores ligados ao decrescentismo tenhem denunciado este discurso no baleiro. Pedro Prieto, membro da Associaçom para o Estudo dos Recursos Energéticos e divulgador do peak oil, tem apontado, entre muitos outros, que a inconcreçom de cifras, planos e prazos obedece à ocultaçom do reto de fundo: “como e quando imos deixar de queimar combustíveis fôsseis”. Vozes tam autorizadas como a de Fatih Birol, responsável pola Agência Internacional da Energia, já assinalárom em 2008 que cumpria deixarmos as energias fôsseis “antes de estas nos deixarem a nós”.

Capitalismo verde e esquerda confusa

Bem é certo que nom todas as instáncias adoecem do nível de retórica oca e falta de definiçom da dirigência política mundial. A esquerda reformista, ligada às instituiçons e alimentada fundamentalmente por quadros académicos, tem socializado os seus programas alternativos, seguindo o ronsel de grandes criadores de opiniom como o norteamericano Al Gore, ou a ONG Greenpeace, que se venhem apresentando como um bloco alternativo à corrente negacionista que, baixo as bandeiras de Donald Trump ou Bolsonaro, se agrupam na direita extrema. Baixo a palavra de orde “desmaterializaçom da economia”, esta é a linha que diz seguir a Comissom Europeia no seu projecto de “descarvonizar a economia” para 2050.

E para além de gestos simbólicos e carentes de qualquer sinceridade, como a assinatura do conhecido manifesto decrescentista Chamada Derradeira, as grandes figuras da esquerda institucional no Estado espanhol aderem às teses do crescimento verde tam caras à socialdemocracia.

Sintetizando no máximo umha proposta de grande apoiatura teórica e técnica, o capitalismo verde sugere que é possível combinar a descarvonizaçom da economia com o mantimento do crescimento económico; ainda mais, a reconversom da inteira base económica da sociedade a prol das energias renováveis suporia a criaçom dum inesgotável viveiro de empregos e dum novo mercado de consumo circular. Pedro Prieto foi umha das poucas vozes críticas que, desde a esquerda, saiu ao passo das teses pró-crescimento de Vincenç Navarro e do grosso de economistas que desenharam o apartado económico de programas eleitorais como o de Unidas Podemos.

Se desde há quatro décadas os cientistas advertem de que o colapso ambiental traz um perigo mortal para a humanidade, e a casta política conhecedora do dilema se inibe nas decisons apremiantes, existe responsabilidade direta contra a vida das gentes.

Protestas do movemento Extinction Rebellion este mes en Londres. No cabeceiro, diante das Royal Courts of Justice. Nesta imagem, no ministério britânico de indústria e Energia. @Terry Matthews @Sophie Tait

Embora um maior desenvolvimento tecnológico permita a melhora da eficiência dos dispositivos e máquinas de menor efeito poluinte, Prieto sostém que qualquer estudo rigoroso chega a umha concluson talhante: “o aumento do PIB corresponde-se inequivocamente com o aumento do consumo de energia primária”. A constataçom empírica deste capitalismo verde, ainda em fase inicial, diz que “os países desenvolvidos parecem estar a verter as suas empresas poluintes e energívoras até os países subdesenvolvidos, enquanto obtenhem mesmo dessas empresas deslocalizadas ao Terceiro Mundo, através do controlo do comércio mundial e dos direitos e patentes, aumentos do seu PIB que nom contabiliza nem a energia consumida nem a poluiçom provocada. De modo que conseguem umhas melhores curvas, mas deitando lixo no pátio do vizinho e apontando-se o tanto”.

Portanto, a continuidade do crescimento nas décadas vindouras resultaria simplesmente impossível, e a ideia dos fluxos económicos actuais manterem-se incólumes sem petróleo, gas e carvom suficientemente rendíveis para serem explorados, um mero desideratum. O turismo de massas, o comércio global por ar, mar e terra, as infraestruturas e transportes militares, e até mesmo umha grandíssima parte do consumismo supérfluo, estám abocados a esboroar no médio prazo histórico marcado polo peak oil, afirmam autores como Prieto.

Viver a dor e acordar de vez

Como lembrava o intelectual galego Carlos Taibo nestas mesmas páginas há poucos meses, o decrescentismo, como movimento social, nom sempre desenvolve todo o potencial dos seus discursos incisivos. Para Taibo, parte dos pensadores de referência do movimento enveredam progressivamente para labores de assessoramento inútil das castas políticas e académicas, no canto de se volcarem na acçom de rua pola mudança radical de modelo. Aliás, numha concepçom antisocial da fugida e das vidas coerentes, pequenos núcleos activistas preocupárom-se mais com edificar existências marginais e solitárias além da vorágine consumista, do que em organizar mais e mais pessoas no combate contra o capitalismo e o seu dogma de crescimento infinito.

A ideia dumha transiçom silenciosa e harmónica, edificada por grupos cooperativos com grande poder de emulaçom, no que as classes dominantes e o seu selvagismo se esvaeceriam do mapa ante a força dum novo paradigma pacífico, interclassista e colaborativo, é parte da bagagem mais idealista e ingénua deste movimento. Como um dos seus teóricos reconhecia, a militância real, com os seus dilemas e asperezas, nom resulta bocado de gosto a toda umha promoçom de activistas educados no lercheo de internet e na elaboraçom de tratados teóricos: “um dos problemas militantes ao que mais urge encontrar umha soluçom é a capacidade de absorçom de tarefas, que afectam negativamente o desenvolvimento pessoal e biográfico dos activistas, tarefas que ademais exponhem ao perigo objectivo da repressom”, di Emilio Santiago Muiño en La lucha no es el único camino.

Nom parece que este desacougo polo “desenvolvimento pessoal e biográfico”, nem o medo à repressom, típico das classes médias em decadência, sirva para enfrontar um grande desafio colectivo, e menos os reptos que coloca todo um colapso civilizatório. De aceitarmos a diagnose em toda a sua crueza, mais bem haverá que enxergar a nossa sociedade —e, portanto, as nossas biografias — prescindindo das lentes de qualquer consolaçom vácua. 

Ativistas de Extinction Rebellion na embaixada de Franza en Londres este xulho. @Hannah Woodhouse

Pequenos núcleos activistas preocupárom-se mais com edificar existências marginais e solitárias além da vorágine consumista, do que em organizar mais e mais pessoas no combate contra o capitalismo e o seu dogma de crescimento infinito.

Claro que os tempos mudam, e com eles as atitudes. Nos próximos meses ou anos imos ver se o decrescimento frutifica em movimento de massas de rua, e de carácter combativo. Com umha madurez infrequente nos movimentos populares em Occidente, o projecto Extinction Rebellion chamava no seu manifesto fundacional no passado dezembro a assumir a altura de ánimo que exigem os tempos: “queremos conhecer a verdade e enfrentar a dor, o do fai parte da nossa missom”. O movimento, que tem debutado blocando artérias de comunicaçom centrais para pedir “medidas imediatas contra a extinçom”, nom chama por isso a um talante niilista, senom a assunçom real do que acontece: “A rebeliom nom é só um direito, é um dever: movemo-nos por amor à esperança e à vida, e para acadar as demandas colocadas necessitasse desobedecer e aceitar riscos com um certo grau de sacrifício pessoal (como, por exemplo, assumir um arresto, multas e mesmo um encarceramento)”.

É a primeira vez que, desde os anos mais tensos da guerra fria e o perigo nuclear, um movimento nom abertamente revolucionário fala com palavras tam grossas e chama a atitudes tam firmes. Extinction Rebellion encetou as suas atividades na Grande Bretanha e convocou à populaçom às ruas do mundo a decretar a desconfiança radical com os governos para blocar, com acçom direta desobediente e nom violenta, “o crime contra a humanidade que argalham os nossos dirigentes”. Num razoamento singelo, Extinction Rebellion conclui que, se desde há quatro décadas os cientistas advertem de que o colapso ambiental traz um perigo mortal para a humanidade, e a casta política conhecedora do dilema se inibe nas decisons apremiantes, existe responsabilidade direta contra a vida das gentes.

“O colapso social é inevitável, a catástrofe provável, e a extinçom humana possível”, lê-se neste manifesto severo e conciso. Circula polas redes a um tempo em que as mobilizaçons se extendem polas ruas da França, patenteando o descontentamento popular por umha política impositiva que carrega as classes trabalhadoras (“os pobres que poluem”) e evita tocar os grandes conglomerados fossilistas e nucleares; e fai-no quando em vários pontos do planeta, um eleitorado apavorado vira à direita extrema para poder gorentar —por riba de quem for— as últimas faragulhas do Estado providência. O velho mundo esmorece e o novo —seja qual for— emerge, sem nenhum perfil definido, entre a confusom e o conflito.

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